14 maio, 2009

ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE

Leio num ensaio de David Antunes sobre António Franco Alexandre:

"A poesia corresponde assim não tanto a um acto de criação e representação, muito menos de esclarecimento, mas sobretudo de negação e apagamento, de rasura. A poesia enuncia uma teoria do conhecimento que precisamente está consciente de que a apreensão e nomeação do objecto se constituem sempre como uma reductio da presença deste e um encolhimento morfológico do que, à falta de melhor expressão, chamo a sua extensão ontológica."

E não posso deixar de pensar que ficaremos sempre assim quando falamos da poesia e dos poetas: correctos e teóricos mas, irremediavelmente, longe da música e da luz. Ficaremos sempre longe.

Olhar dentro do espelho deu-me ideias
do que seria um animal perfeito;
já penso transformar-me, ter maneiras,
asas talvez, ou tromba vigorosa;
dizer adeus aos fios, e adquirir
o encanto popular dum percevejo
ou o hieratismo de uma louva-a-deus.
Ser outro é privilégio de quem tece
na face do destino um transparente
véu, e ao vão casulo
prefere a superfície de uma folha;
com muito estudo, poderei crescer
até figura de homem, se me der
para ser a ti mesmo semelhante.
Perder amigos e vizinhos, ver
à minha volta um assustado espanto,
posso aceitá-lo, se for esse o preço
de uma forma mais fina e elegante;
só me custa deixar no chão de teia,
a arte de inventar que me conheço.
Melhor seria que mudasses tu; mas,
matamorfoso como és, não vais
cair na esparrela de trocar
o teu corpo que sabe a mar e a luz
pela velha virtude de um insecto.
Diferentes assim, não vejo como
iremos construir casa comum;
talvez me deixes habitar o tecto,
e te deixe eu morar dentro do espelho.

(António Franco Alexandre, Aracne)

1 comentário:

graça martins disse...

Caro José Ricardo, "esta" vou-ta roubar! Mesmo que te importes...Já é tarde e o furto já sucedeu, creio que não há remédio. Culpa tua.
...mesmo assim, agradeço,
gm