12 maio, 2009

ANJOS


Uma das minhas aulas de hoje era dedicada à distinção entre arte como imitação, representação e expressão. Para isso, preparei uma apresentação em powerpoint com muita pintura e fotografia, para além de várias músicas e dois poemas de Jorge de Sena.

Este quadro de Ticiano foi um dos apresentados. Entretanto, depois de analisado, um aluno interrompe-me para me perguntar se os anjos são imitações ou representações. A pergunta, confesso, deixou-me surpreendido. Mas defendi tratar-se de arte mimética, apesar de não existirem. O meu argumento foi o seguinte: não existindo, não parece razoável, à partida, poderem ser imitados. Podemos imitar uma árvore, um cacho de uvas ou a cara da ministra da educação. Mas os anjos não são uma realidade imitável como as anteriores. Certo.

Só que, ainda que não existindo, não deixamos de ter uma concepção física dos anjos "tal como eles são". Os anjos são "assim", como aquele do quadro de Ticiano, que reproduz mimeticamente o anjo "tal como ele é". Imaginemos, por exemplo, o Joker do Batman. Ou o próprio Batman. Não existem. Mas se eu fizer um desenho que reproduza fielmente as duas personagens, eu estou a seguir um percurso mimético. E, com os anjos, passa-se o mesmo.
Aliás, nós, seres humanos, somos especialistas nisto. Pensarmos e falarmos sobre coisas que não existem. E fazendo-o com tanta convicção e segurança como se estivéssemos a olhar para elas

1 comentário:

José Borges disse...

« E fazendo-o com tanta convicção e segurança como se estivéssemos a olhar para elas.»

Um pouco como a remeniscência em Platão, talvez tenhamos delas um conhecimentos que não é desta vida...