04 maio, 2009

AMADEO CARICATURISTA


Na semana passada, dias antes de ter ido (pela segunda vez) ao museu Amadeo Souza-Cardoso, em Amarante, alguém aqui em casa dizia que se tratava de um menoríssimo pintor, um imitador sem qualquer ponta de originalidade. Eu, claro, não concordei. Gosto muito da pintura de Amadeo e não vejo que se tenha de ser especialmente original para se poder ser considerado bom naquilo que se faz. Apesar de também entender que Amadeo é quem é, por ser português e, em terra de cegos,quem tem um olho é rei. Recordo, mais uma vez, o delicioso episódio de Artayett, bastante revelador do nosso atraso cultural.

Agora, independentemente de se gostar ou não da pintura de Amadeo, não podemos esquecer (e eu tinha-me esquecido) do grande caricaturista que também foi. Está, no museu, uma série de caricaturas absolutamente deliciosas, sendo a maior "vítima" o desenhista Emmerico Nunes que aqui surge retratado.

2 comentários:

Alice N. disse...

Concordo consigo. Também considero que Amadeo foi um excelente pintor e um óptimo caricaturista. Penso até que, em vários quadros, Amadeo soube dar um cunho pessoal à sua pintura, assimilando, reinterpretando e recriando de uma forma muito peculiar correntes modernistas como o cubismo e o futurismo, entre outras. Veja-se, por exemplo, quadros como "Canção Popular" ou "Trou de Serrure.Parto da Viola". Sem dúvida, encontramos ali a linguagem das correntes que revolucionaram a pintura no início do século XX, mas também, creio eu, marcas de um estilo pessoal e até de uma inconfundível portugalidade. Não sou da área das Artes, mas é o que me parece.

Também acho que a qualidade de um artista não se mede apenas pela sua originalidade, embora essa mereça valorização. Há artistas que, por serem muito originais, têm um estilo inconfundível e, no entanto, não evidenciam grande técnica (ou não a valorizam) nem me merecem especial admiração. Outros há que podemos facilmente confundir com outros artistas, sem que isso lhes diminua o valor. Estou a pensar, por exemplo, em certos quadros de Picasso e Braque, na fase em que ambos se entregaram ao cubismo analítico. Há telas que são tão semelhantes que é impossível, apenas com base na observação, perceber quem pintou o quê; isto porque os dois artistas trabalharam e exploraram juntos as potencialidades plásticas do cubismo. Tal facto, julgo eu, não retira valor a nenhum dos dois pintores (sobretudo ao gigantesco Picasso!). E muitos outros exemplos poderiam ser citados, já que nenhum artista vem do nada.

É claro que um artista que reúna excepcional qualidade técnica e uma originalidade que lhe defina um estilo e linguagem próprios marca uma enorme diferença: deixa de ser um entre os demais e ascende ao estatuto de génio. A vida não quis dar a Amadeo o tempo suficiente para se tornar num génio, mas acho que ficou lá perto, muito perto.

Alice

Ops! O comentário está enorme. Estes temas apaixonam-me muito. Desculpe o abuso.

addiragram disse...

Gosto de Amadeo e tb descobri o caricaturista no museu de Amarante. Vi com grande entusiasmo a exposição da Gulbenkian. Qual o pintor que não é um imitador? É o ponto de partida de qualquer um.