01 abril, 2009

THE SILENCE OF SOUND

Van Gogh, Igreja em Auvers

Um quarto dos portugueses queixa-se do ruído na zona onde vive. Ao ler esta notícia lembrei-me do facto de Goethe achar insuportável o barulho dos sinos.

E, mal pensei nisso, pensei numa experiência pessoal. Uma vez por semana durmo num pequeno hotel que fica em frente de uma escola de música e de uma igreja. Mal acordo de manhã, ainda na escuridão do quarto, ouço esboços de sons articulados que não chegam a ser música. Sobretudo de metais: trombone, clarinete, oboé. Percebe-se que são sons que tentam aprender a ser música. Misturados com estes esboços sonoros, de meia em meia hora, oiço o sino da igreja a tocar.

Ora, imagino a reacção de Goethe, no século XIX, perante esta caótica orgia de sons matinais. O seu desespero. Mas o que seria, no século XIX, poluição sonora pura e dura, é, hoje, em pleno século XXI, no meio do caos urbano feito de sons de motas, carros, autocarros, aviões, buzinas, televisões, música para os meus ouvidos.

Eu ouço o som do trombone a tentar ser música e consigo ouvir o esforço orgânico de uma pessoa que está a aprender a fazer música. Há uma enorme diferença, do ponto de vista formal, entre o som da buzina de um carro e o som de um clarinete, ainda que este não chegue a ser musical. Embora sejam ambos sons com presença humana, o som da buzina ganha autonomia relativamente ao ser humano que o desencadeou. Há uma mão que provoca o som mas, depois, o som já não pertence mais à mão mas a si próprio. No som titubeante do clarinente, pelo contrário, o som só existe enquanto existe o ar que lhe dá origem. Apesar da sua existência depender de um instrumento, este ganha o mesmo estatuto orgânico ou humano de uma voz. Eu oiço o gaguejar matinal do clarinete e oiço um jovem a gaguejar mas que se esforça por aprender a falar.

Também ouvindo o som do sino, sou levado a uma época em que Deus ainda existia. E isto faz-me lembrar o século XIX, os sons do século XIX que Goethe detestava porque viveu no século XIX e o humano só passa a ter valor quando se antevê a vinda do pós-humano.

6 comentários:

Alice N. disse...

Vivi durante um ano perto de uma escola de música, no centro de Ponta Delgada. A rua era pedonal e era, de facto, fantástico passar ali e ouvir ora um instrumento, ora outro... Sempre que por ali passava, abrandava o passo, com vontade de não sair dali. Nesses momentos, os Açores pesavam menos na minha alma...
Quanto aos sinos, só gosto de os ouvir nas aldeias. As badaladas soam de outra forma, longe dos ruídos da cidade...
Mas nada chega ao profundo silêncio da Natureza. Ouvir o "som" do silêncio com uma natureza luxuriante à volta, é uma experiência abolutamente indescritível.

Micha disse...

Este post e' magnifico. Diria que e' que como uma fotografia cheia de sons estaticos e que evoca tanto ruido interior.

José Trincão Marques disse...

O Oboé não é um instrumento de metal, mas sim de madeira (ébano ou jacarandá). Actualmente já se fabricam alguns de plástico.
Aliás, o termo Oboé vem do nome francês haut bois, que significa madeira alta, devido ao seu registo sonoro agudo.
Foi por algumas destas que achei impossível teres sido baterista numa banda rock.

José Ricardo Costa disse...

Zé, obrigado pela informação.Porém, a tua dedução acerca dos meus putativos desvarios rockeiros não é sensata: o oboé e a bateria raramente terão andado juntos.

JR

José Trincão Marques disse...

O oboé, a bateria e o Rock andam mais vezes juntos do que podes pensar. Pensa nos trabalhos do Sting, por exemplo.
Por outro lado, os músicos praticantes, incluindo os bateristas, normalmente são pessoas atentas a certos pormenores.

José Trincão Marques disse...

http://www.absoluteastronomy.com/topics/The_Soul_Cages

http://www.youtube.com/watch?v=OiLjkMupY38&feature=related