11 abril, 2009

SER PORTUGUÊS É HUMANO

Um dia, depois de dar uma aula sobre o pensamento da criança entre os 3 os 6 anos cheguei a casa e aproveitei para fazer umas experiências com a minha filha, então com 4 anos. Perguntei-lhe qual a diferença entre um dálmata e um cão. Fosse ela mais velha e diria que a pergunta era estúpida! Mas, com 4 anos, deu uma resposta que teve tanto de enternecedor como de ingénuo: os dálmatas têm pintas e os cães não.

Ora bem, a sua dificuldade tinha a ver com aquilo que, em Filosofia, dá pelo nome de extensão de um conceito. Vejamos: dálmata, cão, mamífero, animal. “Cão” é mais extenso do que “dálmata”, pois todos os dálmatas são cães mas nem todos os cães são dálmatas. “Mamífero” é mais extenso do que “cão” pela mesma razão: todos os cães são mamíferos mas nem todos os mamíferos são cães.

Maria de Lurdes Rodrigues é um ser racional mas, graças a Deus, nem todos os seres racionais são Maria de Lurdes Rodrigues. Como se vê, a Lógica também pode contribuir para a nossa felicidade.

Desde que nasci, um dos provérbios que mais ouço em Portugal, é o clássico “Errar é humano!”. Tanto em homens como mulheres, jovens e idosos, patrões e operários, condutores e peões. Erramos, erramos, erramos. Mas depois há sempre um consolador “errar é humano!”. O problema é o modo como os portugueses, devido às suas conhecidas dificuldades lógico-matemáticas, interpretam o provérbio: invertendo-o. Embora digamos que “errar é humano”, lá no fundo achamos que “ser humano é errar”. O que é maravilhoso!

Errar passa a ser qualquer coisa que tem a ver com a espécie e não com a pessoa que errou. É como dizer: se todos os homens respiram por pulmões, e eu sou homem, logo, que remédio tenho senão respirar por pulmões.

Daí quando dizemos, erro após erro, que “errar é humano”, assumimos isso como se achássemos que ser humano consiste em errar. É como se fosse uma fatalidade do destino. De um destino que marca a hora: a hora em que erramos que, em Portugal, são quase todas. O erro, por cá, não é visto como um mero acidente de percurso, um imprevisto mas, pelo contrário, algo que identifica o próprio ser humano, uma marca da natureza humana.

Porquê? Porque ao pensarmos que “ser humano, implica errar” estamos a confundir “ ser humano” com “português”! O que, felizmente para o ser humano, está longe de ser verdade. Gostamos de pensar que “ser humano é errar” em vez de pensarmos que “ser português é errar”. Mas está mal. O que está certo é: “ser português é errar”, e não: “ser humano é errar”.

Em suma, fazemos uma terrível confusão a nível da extensão de conceitos, como acontece com os cães e os dálmatas na cabeça de uma criança de 4 anos. Mas num país que, tal como tenho vindo a defender, vive ainda no estádio pré-operatório, tais subtilezas da razão, tornam-se verdadeiros enigmas. Daí não nos limitarmos apenas a errar ostensivamente. Erramos ainda, extensivamente.

1 comentário:

Micha disse...

Que momento de inspiracao!
Excelente!