04 abril, 2009

OS SALTOS DE GERD MÜLLER

Merleau Ponty, na Fenomenologia da Percepção, diz que há uma relação de concordância entre o gesto, o sorriso e o sotaque de um homem que fala, relação essa que torna o corpo humano na manifestação de uma certa maneira de estar no mundo. Mas que, de acordo com uma fisiologia mecanicista, será apenas entendida a partir de uma série de relações causais.

Curiosamente, li isto, dias depois de ter passado algum tempo no You Tube a ver o modo como os jogadores de futebol festejavam os golos nos anos 60 e 70. Reparem como o futebolista Gerd Müller festeja o golo logo no início deste filme. Já ninguém festeja os golos assim. Aquele modo de saltar e de levantar o braço direito como se estivesse a querer libertar-se de um pedaço de fita cola na mão. Há mesmo situações em que o jogador faz aquele movimento mas sem correr, ou seja, completamente parado aos saltos e a querer expulsar o braço do resto do corpo. Ora, como é possível que um movimento tão mecânico como este seja, ao mesmo tempo, um movimento que manifesta uma "certa maneira de estar no mundo"? De facto, o corpo em si não existe, o corpo mecânico cartesiano é uma ficção. O meu corpo sou eu. Eu sou o meu corpo.

1 comentário:

José Trincão Marques disse...

Também me parece que assim é. Já reparei nisso através da comparação de filmes mais antigos com os mais recentes.
A representação dos actores tende a reflectir as maneiras de estar e de ser de cada tempo.
Os filmes de há cinquenta, sessenta ou mais anos mostram-nos gestos e formas de estar que hoje não se usam.
António Damásio em «O Erro de Descartes» afirma que «a mente existe dentro de um organismo integrado e para ele; as nossas mentes não seriam o que são se não existisse uma interacção entre o corpo e o cérebro durante o processo evolutivo, o desenvolvimento individual e o momento actual. A mente teve primeiro de se ocupar do corpo, ou nunca teria existido. De acordo com a referência de base que o corpo contantemente lhe fornece, a mente pode então ocupar-se de muitas outras coisas, reais e imaginárias.
Esta ideia encontra-se ancorada nas seguintes afirmações: 1- o cérebro humano e o resto do corpo constituem um organismo indissociável, formando um conjunto integrado por meio de circuitos reguladores bioquímicos e neurológicos mutuamente interactivos (incluindo componentes endócrinas, imunológicas e neurais autónomas); 2- o organismo interage com o ambiente como um conjunto: a interacção não é nem exclusivamente do corpo nem do cérebro; 3- as operações fisiológicas que denominamos por mente derivam desse conjunto estrutural e funcional e não apenas do cérebro: os fenómenos mentais só podem ser cabalmente compreendidos no contexto de um organismo em interacção com o ambiente que o rodeia.»
Por isso, nas tuas palavras «O meu corpo sou eu» e «Eu sou o meu corpo», em interacção com o ambiente que me rodeia (acrescentaria António Damásio).