04 abril, 2009

OS PRINCIPADOS HEREDITÁRIOS

Julgo não estar a dizer nenhum disparate se disser que sempre que lemos Maquiavel o fazemos com a intenção de melhor entender a nossa própria realidade política. Trata-se de uma irresistível tentação. Ora, foi precisamente isto que me aconteceu, esta madrugada, durante o capítulo II de O Príncipe, intitulado "Os Principados Hereditários".

Diz o pensador italiano: "Digo, pois, que, nos estados hereditários e afeitos ao sangue do seu príncipe, as dificuldades para os manter são bastante menores do que nos novos, porque basta apenas não preterir as ordens dos seus antepassados e, depois, contemporizar com os imprevistos. Assim, um príncipe que seja, de ordinário, industrioso manter-se-á no seu estado, a não ser que haja uma força extraordinária e excessiva que dele o prive. E, mesmo que dele seja privado, a qualquer desastre que tenha o ocupante, ele readquire-o".

É precisamente isto que acontece com a relação que PS e PSD mantêm com o estado. No fundo, trata-se de um estado hereditário no qual o PS e o PSD sucedem a si mesmos. Um estado em que não há nada de novo debaixo do Sol. O PSD, que vive um momento de crise, sabe que, mais cedo ou mais tarde, irá regressar ao poder que é "sempre" seu, que nunca deixou de ser seu, do mesmo modo que o PS, quando voltar a perder eleições, sabe que nunca deixará verdadeiramente o poder.

Há, neste sentido, um poder, que não tem de se confrontar com "forças extraordinárias e e excessivas" que privem PS e PSD do poder. Mesmo que o PRD, em tempos, tivesse destronado aqueles dois partidos, o "desastre" natural do PRD trá-los-ia de novo ao poder.

O que fazem então PS e PSD para se manter no poder? Maquiavel responde: "Não preterindo as ordens dos seus antepassados e contemporizar com os imprevistos". E quem são os antepassados? Os antepassados são sempre eles mesmos. O príncipe, seja do PS ou do PSD, sucede sempre a um outro príncipe do PS ou do PSD. E podemos mesmo dizer que não há qualquer descontinuidade quando um príncipe do PS sucede a um outro do PSD e um princípe do PSD sucede a um outro do PS.

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