01 abril, 2009

O SOAR DE UM SINO NO AR PURO

Há uma passagem em As Anotações de Malte Laurids Brigge que nunca me saiu da cabeça:
"Mas eu estou a ler outro poeta, que não vive em Paris, que é totalmente diferente. Ele tem uma casa sossegada na montanha. Ele soa como um sino no ar puro". Relógio de Água, pag.64.
Eis uma imagem sonora que me persegue há anos: o soar de um sino no ar puro. Como se o ar puro de uma montanha fosse uma folha branca na qual se desenharia o som do sino, passando este a fazer fisicamente parte da matéria daquele. Como explicar? Como se o soar do sino fosse absorvido organicamente pelo ar puro e depois se confundissem.
Eu poderia concordar com Rilke, dizendo que há poesia que pode soar como um sino no ar puro. Mas aqui vou ser mesmo radical: o soar de um sino no ar puro só pode mesmo ser o soar de um sino no ar puro. Perante isto, a linguagem está sempre a mais.

2 comentários:

addiragram disse...

Ouçamo-lo!

Alice N. disse...

Texto maravilhoso, com um remate de génio!

"O soar de um sino no ar puro só pode mesmo ser o soar de um sino no ar puro." Grande frase! Está tudo dito, realmente. Depois disto, permita-me que lhe diga: parabéns, Mestre José Ricardo Caeiro!