18 abril, 2009

O MILAGRE DE OURÉM


Não entendo, nunca entendi nem jamais irei entender o sentimento religioso. Paciência. Mas aceito que uma pessoa, hoje, em 2009, acredite que Jesus, pobre judeu, filho de uma mulher fecundada pelo Espírito Santo, tenha, depois de morto, voado até ao céu por ser um deus, ou melhor, 1/3 de deus. O meu lado bom e humano só pode mesmo aceitar estes curto-circuitos mentais.

Agora, o que já não entendo é todo o espalhafato e folclore dos milagres para legitimar a santidade ou divindade de um ser humano. Nós poderíamos aceitar os ensinamentos morais de Jesus sem precisarmos de o considerar "divino" (houve quem o fizesse mas foi logo considerado herético pelos ambiciosos e gananciosos poderosos de Roma). A verdade do que ele diz não carece de uma legitimação sobrenatural. Posso considerar o "amai-vos uns aos outros" verdadeiro porque a minha sensibilidade, a minha inteligência, o meu bom senso, me dizem que é verdadeiro. Não tem de ser um deus a dizê-lo para ter que ser verdadeiro. Nem tem de ser alguém que se dedicasse ao fogo de artifício dos milagres para poder ser verdadeiro.

Ora o mesmo se passa com a canonização de certos seres humanos. Se acham que Nuno Álvares Pereira era santo, caramba, considerem-no então. Porque era bom, porque deu aos pobres, porque se dedicou a uma vida contemplativa, sei lá, pelo que bem entenderem. Agora, para quê ir buscar uma cozinheira de Ourém que queimou um olho a fritar peixe e que, 7oo anos depois de Nuno Álvares Pereira ter morrido, é curada por este?

Não se pode ser extremamente bom sem precisar da estupidez irracional dos milagres? Não se pode alcançar a santidade (em sentido kantiano) sem se ser um deus ou um santo ( em sentido católico apostólico romano)?

Eu entendo que Cristo, naquele tempo, para arrastar os pobres analfabetos que o seguiram, tivesse de recorrer ao espalhafato dos milagres. Agora, que a igreja católica, em pleno século XXI, continue a fazê-lo, é qualquer coisa que não me merece qualquer tipo de respeito.
Não sou cristão, é certo e, como tal, não devo meter-me nos assuntos íntimos dos cristãos. É verdade. Mas, neste caso, não é o não-cristão que se indigna. É o ser humano chocado com a estupidez do ser humano.

4 comentários:

addiragram disse...

Será a estupidez ou a necessidade de continuar a exercer um poder através do recurso à estupidificação dos grupos?

José Ricardo Costa disse...

Hipótese B.

JR

adsensum disse...

José,

Desde há algum tempo que acompanho este blog sempre com bastante interesse e com verdadeira estima e apreço pelos seus escritos que tanto admirava.
Até ter lido este post.
Reli-o várias vezes tentando negar a mim própria a primeira mensagem que do mesmo retirei.

Esperava que da sua "inteligência" brotasse uma opinião que, apesar de descrente (o que muito respeito), pudesse relevar pela natureza disso mesmo - uma opinião - e não pela mera ofensa.

Tomou o todo pela eventual parte: "o ser humano chocado".

Tal feriu-me pela linguagem utilizada: "folclore", "espalhafato", "estupidez", "irracional", e de novo o "espalhafato", "não merece qualquer tipo de respeito", etc.

Não era preciso ir tão longe para escrever sobre este assunto porque, afinal de contas, não deve meter-se "nos assuntos íntimos dos cristãos. É verdade.". Teve este momento de lucidez.

"Não posso conceber um autêntico cientista sem fé profunda. A situação pode ser expressa por uma imagem: a ciência sem religião é deficiente, a religião sem ciência é cega." Albert Einstein

Que pena, José, que senti.

Acredite. É sincero. Que pena.

adsensum

José Ricardo Costa disse...

Cara adsensum,
Lamento profundamente tê-la chocado. Nós, na Filosofia, estamos habituados a explorar conceitos e argumentos sem quaisquer preconceitos. As ideias, os pensamentos, são o que são independentemente de concordarmos ou não. Se concordamos, concordamos, se não concordamos, não concordamos.

Mas entendo o facto de a área religiosa ser sensível. E acredite, mas acredite mesmo, se eu sou tão crítico relativamente a certas manifestações, sobretudo católicas, é precisamente para salvaguardar essa religião que tanto admiro, que é o Cristianismo. O Cristianismo pode perfeitamente sobreviver sem a superstição mais primária e infantil. Eu acho ser o Cristianismo uma exemplar resposta para muitos dos problemas da humanidade mas, para isso, precisa de crescer, como fizeram os protestantes alemães, holandeses, suecos, dinamarqueses. Aliás, o próprio Einstein, que cita, tendo enorme respeito pela religião, tal como eu, abominava, tal como eu, os aspectos mais irracionais da religião.

Quanto à linguagem, mais uma vez, lamento um possível excesso. Mas é isso que eu acho. Se eu provar um bolo feito por si e este estiver amargo e eu disser que está amargo, pode não ser agradável mas é isso que eu acho. Se eu achar que é irracional uma mulher de Ourém ser curada num olho graças à intervenção de um militar português do século XIV que se fartou de matar pessoas, digo que é irracional. O que queria que eu dissesse? Lembra-se da história dos cartoons dinamarqueses que inflamaram os muçulmanos?

Cumprimentos e, mais uma vez, do fundo do coração, lamento imenso que tenha ferido a sua sensibilidade. Olhe, coisas de filósofos... Dê o desconto.

JR