02 abril, 2009

O MARTELO SEM MESTRE


Um artigo como este, apesar de me deixar triste como ser humano, deixa-me, ainda que perversamente, mais aliviado enquanto português: não é só em Portugal que ocorrem as más notícias.

E quem diz música, diz também, por exemplo, pintura. Como explicar o facto de os nossos alunos, saírem do liceu (desculpem a anacronismo mas já cheguei àquela idade em que posso dizer o que me apetece) sem qualquer cultura musical e artística? A sua ignorância relativamente à música erudita ou à pintura é absolutamente confrangedora. E tal acontece apesar de terem disciplinas que, supostamente, os deveriam educar.

Eu tive 5 anos de Desenho e 2 de Educação Musical. O que fazia nas aulas de Desenho? Desenhava. O que fazia nas aulas de Música? Aprendia aquela coisa das colcheias como se estivesse numa aula de Matemática. Ora, hoje, eu tenho tanto jeito para pintar um quadro, fazer um desenho ou tocar flauta como para desmontar o motor de uma avioneta.

A maior parte dos seres humanos deste mundo não vai ser pintor ou músico. Logo, não percebo por que razão se perdem anos de trabalho para desenvolver uma capacidade que nunca irá ser concretizada. As aulas de Desenho e de Educação Musical deveriam servir, sobretudo, para desenvolver uma cultura musical ou artística, levando os garotos a ouvir música, a saber ouvir música e a saber falar sobre o que ouvem. E o mesmo se passa com a Arte. Ou seja, oiçam bem: aulas teóricas.

Poderão dizer que, deste modo, transformando essas aulas em aulas teóricas, se irão perder futuros músicos e pintores. Não, é precisamente o contrário. Quanto mais crianças e jovens puderem entrar no mundo da música e arte, amando a música e a arte, envolvendo-se com a música e a arte, tratando Mozart e Matisse por "tu", mais facilmente despontará o músico ou pintor que dorme em cada criança e jovem.

Mas também é verdade que, na escola actual, aqui e, pelos vistos noutros países, o que a escola quer é produzir gerações de carneiros ignorantes, preparados para ganhar 500 euros por mês e ainda ficarem agradecidos por isso. Mais do que pautas e telas, iremos ter martelos.

1 comentário:

jose albergaria disse...

Meu caro,
Como dizia alguém: "com o mal dos outros podemos nós bem".
A critica que faz, por via da citação, aos ingleses é tão contundente quanto a que faz à nossa escola.
Contudo sempre há noticias boas, no território que escolheu para este seu poste.
Eu estou director num museu de ciência da Amadora.
Tenho acompanhado o Projecto Geração/Oportunidade apoiado, financiado pela Fundação Gulbenkian, em articulação com a CMAmadora e o Agrupamento de Escolas Miguel Torga, sedeado na freguesia de S. Brás. Este projecto tem duas componentes. Uma, coordenada pelo judoca e actual selecionador da nossa equipa de Judo, Nuno Delgado e, a outra: Orquestra Geração.
A maestrina desta "Orquestra", que conta 67 crianças (todas oriundas de um bairro de realojamento social)Beatriz Mantanilla, formada na escola das Orquestras Sinfónicas Juvenis da Venezuela (realidade anterior a Hugo Chavez)mostrou faz pouco tempo os resultados obtidos em meses de aprendizagem criativa e original:Beethovem, Mozart e trechos tradicionais da Venezuelam foram tocados perante a rainha da Jordânia, que nos visitou recentemente e da primaira dama, a Dr.ª Maria Cavaco Silva.O Presidente FCG, Rui Vilar também esteve presente.
A metodologia é deveras interessante, eficiente e descobre talentos em lugares sociais inimagináveis.
JA