27 abril, 2009

MÚSICA E REFERÊNCIA

Rothko, nº14

Há dias, no carro, ia a ouvir na Antena 2 o Tema de Amor, do Romeu e Julieta, de Tchaikovsky. À medida que ia ouvindo, não ia deixando de pensar no seguinte: qual a relação entre a música, ou seja, todo aquele conjunto de sons interligados de acordo com uma certa ordem, e o tema propriamente dito?

Não sei se me faço entender. Pensemos num quadro, ou seja, uma imagem. Nós olhamos para a imagem e temos de imediato uma referência à qual se liga a nossa percepção e a nossa consciência. A paisagem é uma paisagem, um animal é um animal, uma igreja é uma igreja, uma criança é uma criança. Mesmo que se trate de um plano abstracto, por exemplo, uma pintura de Rothko, sabemos que aquele vermelho é aquele vermelho e não um cavalo ou um trapezista no circo.

E o mesmo se passa com a poesia, com a escultura, com o cinema, com a fotografia. Eu posso interpretar livremente o que vejo mas estou sempre dependente de uma referência, de um objecto. Quando eu leio " Em cada mulher existe uma morte silenciosa" o que se passa na minha cabeça pode não ser o que se passa na cabeça de outra pessoa. Mas ao ler " Em cada mulher existe uma morte silenciosa" na minha cabeça não pode surgir um cão a ladrar numa praia ao pôr do sol.

Ora, com a música passa-se algo de completamente diferente. A música não tem referência. Ou melhor, pode ter, por exemplo, simular sons de pássaros, uma trovoada e aí, sim, eu percebo que oiço os sons dos pássaros ou da trovoada. Mas, normalmente, não tem referência. O que faz com que, na minha cabeça, tudo possa acontecer.

Eu ouço o Tema de Amor do Romeu e Julieta, e, porque sei o que estou a ouvir, na minha consciência há de imediato uma associação entre os sons e o tema. Mas, se não houver qualquer pista, tudo pode acontecer: um casal apaixonado, um passeio por um jardim, o fim de tarde numa praça barroca, crianças que brincam no recreio, o rasto do fumo de um avião num céu azul.

A música é, sem dúvida, de todas as artes, a mais abstracta. E, por isso, aquela onde somos mais livres. Mais livres ainda do que perante uma pintura de Rothko.

2 comentários:

addiragram disse...

Será que na música o título da obra é a "semente" para o seu criador e é a "prisão" para o ouvinte? E a referência terá de ser uma referência objectivável ou poderá ser também uma referência abstracta? Foram apenas questões desordenadas que me surgiram...

José Ricardo Costa disse...

Acho que está bem observado. Penso, no entanto, que a prisão, neste caso, pode ser útil, no sentido em que ajudará a ouvir. Claro que, depois, ficamos reféns do título, um pouco como acontece quando lemos um livro depois de termos visto o filme.

A referência pode ser perfeitamente abstracta: "Composição 2" "nº14", "sonata nº3". Mas será uma referência abstracta uma verdadeira referência? Não será um número ou nome de catálogo? Se assim for, não é uma verdadeira referência.

JR