16 abril, 2009

MATEMANIA



Desta vez foi o Presidente da República que veio com a conversa do grande drama da Matemática em Portugal. Ok, eu entendo que um engenheiro civil precise de Matemática como de pão para a boca. Certíssimo. Não entendo é a razão por que fizeram da Matemática uma espécie de vaca sagrada do conhecimento, da formação humana das pessoas e até mesmo do desenvolvimento social e económico de um país.

Só pode ser uma moda, uma mania, sei lá, um daqueles paradigmas que duram décadas ou séculos e que depois passam com uma rajada de vento. Durante séculos foi a Teologia. Quem não sabia Teologia não percebia nada do mundo e da vida. Hoje, é a Matemática.

Eu tive alunos que foram impedidos de se tornarem bons médicos ou enfermeiros, por serem fracos a Matemática. Mas por que razão um mau aluno a Matemática há-de ser impedido de se tornar um bom médico? Que interesse têm as funções e a trigonometria para a Medicina mas também para um funcionário público, uma guia turística, um empregado de restaurante, um canalizador, um músico, um pintor, um advogado, um vendedor de electrodomésticos?

O drama de Portugal não está na Matemática. A Matemática é um drama nas áreas onde a Matemática é importante e que estão a falhar em Portugal porque os alunos falham na Matemática. Certíssimo. Mas não confundam o todo com as partes. Deixem a Matemática para os matemáticos e o resto para o resto. A maior das actividades humanas não precisa de Matemática ou precisa apenas num nível básico.

O drama de Portugal está naquela minha aluna que não sabe onde fica Espanha. Ou no aluno que, ainda hoje de manhã, quando perguntei quem mandava em Portugal no dia 1 de Dezembro de 1640, respondeu "Salazar". Ou nos meus alunos, que não sabem ler e escrever. Ou que não tem espírito crítico, não sabem pensar, acreditam no primeiro disparate que lhes dizem. E na preguiça, na desordem, na falta de orgulho, de brio, de responsabilidade, no "está-se bem", sabendo que está tudo mal.

Isto, sim, é o grande drama de Portugal. A dramatização da Matemática não passa de areia que nos atiram para os olhos quando há falta de vontade política para resolver os problemas e cortar os males pela raiz.

4 comentários:

sLx disse...

Permita-me discordar. Em meu entender, há três disciplinas que devem (deveriam) ser basilares na formação de uma pessoa: português, matemática e filosofia. Sem elas não somos capazes de interpretar, avaliar e raciocinar sobre o mundo.

No caso em questão, a matemática é fulcral para todos que tomam decisões mesmo as mais triviais. Por exemplo, já que se falou nos médicos, uma má noção das probabilidades provoca erros lamentáveis baseados nos resultados dos exames médicos e que levam inúmeras pessoas a sofrer desnecessariamente (neste caso, a incompreensão do Teorema de Bayes, que também já levou a decisões erradas em certos casos de tribunal). Se tiver interesse, sugiro que leia o pequeno mas essencial livro "Irrationality" de Stuart Sutherland que explica o que quero dizer. Outro exemplo é a total inumeracia dos jornalistas (de percentagens, de juros, de magnitudes) que produz uma torrente de ruído equiparável à incapacidade generalizada de estabelecer e defender raciocínios. O mesmo acontece com os decisores políticos quando analisam dados para tomar decisões em nosso nome.

Claro que o quanto devemos dar de cada matéria (mais estatística e menos trigonometria?), porque que ordem, e com que ênfase, é um assunto diferente.

Abraço,

addiragram disse...

Em Portugal temos diferentes níveis de drama. O mais básico e profundo,dos exemplos que deu,poderá ser o não saber ler nem escrever, ou não saber-se situar nem no espaço nem no tempo,seguir-se-ão outros como os que enumera,mas a dita Matemática é também um outro nível de drama,já que apela para o uso e desenvolvimento do pensamento abstracto.E eu, que não fui barra nenhuma a Matemática, (antes pelo contrário) acho que ela, tal como a Filosofia, fazem parte das matérias que desenvolvem a capacidade de pensar.E é dessa massa que são feitos todos os bons profissionais. Eu não deixo de ser competente na minha área por não ser boa a matemática, mas se a dominasse melhor seria certamente mais ágil em toda a investigação que implicasse o uso deste instrumento. Fiquei sempre com pena por me ter deixado paralisar pelo medo.

marteodora disse...

Há uns anos frequentei um curso de Alta Direcção para a Administração Pública, isto porque, supostamente, não se poderia aceder a um cargo de chefia intermédia sem esse diploma(fui, de facto, ingénua em acreditar em tal coisa)! Bom, mas frequentei esse curso durante um mês. E porquê? Porque desisti!
Para além do facto de me encontrar de licença de maternidade (amamentava de 2 em 2 horas, sendo que isso não seria o impedimento total da coisa); eu, técnica superior, na área da cultura, numa autarquia, deparei-me com uma disciplina chamada "investigação operacional"!É uma disciplina da área da gestão, destinada a técnicos dessas áreas e que inclui muitíssima matemática.
Ainda tentei...tentei, ia às aulas e seguia os raciocinios durante meia hora, no máximo...depois apagava! Não vejo matemática desde o meu 9º ano, portanto, há mais de 20 anos!
Um mês foi quanto me bastou e depois de me interrogar milhares de vezes, porquê, porquê, porquê...eu, técnica de cultura, tinha de me sujeitar àquela tortura. O domínio daquela matéria faria de mim melhor dirigente numa divisão ou departamento de cultura? Então para que servem os dirigentes dos departamentos administrativos e financeiros ou da área da engenharia?
Os que não desistiram, passaram todos à cadeira,creio eu, com base em trabalhos de grupo e outras facilidades por parte do professor que, perante tais evidências, não fosse assim, ou chumbaria 98% da turma!
Agora, o que eu não creio é que se perguntar às minhas colegas da cultura e da acção social, que fizeram o curso nessa altura, se elas utilizam qualquer aprendizagem de "investigação operacional" para o seu trabalho quotidiano, elas me respondam afirmativamente!...

José Ricardo Costa disse...

Volto a insistir na ideia de a Matemática ser uma área fundamental. Há mesmo áreas do saber e profissionais nas quais a Matemática tem uma importância decisiva.

Ponho apenas em causa a sobrevalorização simbólica que leva a que dela façam depender o sucesso e insucesso de uma sociedade ou de uma pessoa considerada individulamente.

Não considero dado como provado que a Matemática seja tão essencial e a ignorância a seu respeito tão prejudicial. Ou que o raciocínio matemático seja assim tão usado nas questões práticas do dia-a-dia.

Atenção, que não vou dizer isto com qualquer orgulho e exibicionismo: não tenho matemática desde o antigo 5ºano dos Liceus, e, enquanto a tive, fui quase sempre um péssimo aluno.

Considero, porém, que nunca na vida me senti prejudicado no que quer que fosse por nada saber de matemática. Aprendi a viver sem Matemática, a entender o mundo sem Matemática, a apreciar dezenas de coisas na vida sem precisar de Matemática. E o que acontece comigo acontece com a Margarida e milhões de pessoas que podem perfeitamente atingir os seus objectivos pessoais sem saber Matemática.

Se me disserem, porém, que Portugal tem um problema porque faltam profissinais numa área por causa das dificuldades na Matemática, aqui, sim, completamente de acordo.

JR