22 abril, 2009

A LIÇÃO DE MÚSICA


"Estive agora sentada ao pé do quadro durante uma hora. Está a fazer-se tarde. Estava a pensar no que haverá nos interiores holandeses que sempre me comoveu desde criança: o tipo de protecção, o sentido de constância, uma exactidão, uma especificidade, a devoção pela ordem, a celebração dos factos triviais. Aquilo a que Cartier-Bresson chamava a determinação em todos os momentos. Há ali a noção de que um quadro pode encerrar conhecimento, informações, informações lindíssimas. E Vermeer não se limitou apenas à matéria. Ele captou o que se pode ver - todas as cambiantes; não se contentou em mostrar um pano em cima de uma mesa, mas a realidade concreta do pano. Pintou a mancha, a cunha de luz na margem do que vemos, e não apenas o objecto que vemos. Pintou a nossa maneira de ver, e não apenas aquilo que podemos ver". Katharine Weber, A Lição de Música, Temas e Debates

Estando, no 10ºano, a iniciar a dimensão estética, preparei uma apresentação em powerpoint de algumas pinturas que poderiam ajudar os alunos a entrar mais facilmente no mundo da pintura. É muito interessante apreciar a sua reacção perante os interiores holandeses. Um mundo tão afastado do seu, sem quaisquer referências idênticas às suas mas que, ao mesmo tempo, os fascina. Tive a bela experiência de ver os garotos dos Morangos com Açúcar, dos sms's e do Hi5, dos shopping centers, em silêncio, apreciando interiores holandeses

Há já uns bons anos vi na televisão, e gravei, um belíssimo filme de Jon Jost chamado All the Vermeers in New York. Já não o tenho, vi-o uma segunda vez há muito tempo mas recordo perfeitamente o fascínio por Vermeer numa cidade como Nova Iorque.

Vermeer pinta a nossa maneira de ver e não aquilo que podemos ver. Uma maneira de ver que, já não sendo a nossa, adoptamo-la de imediato como sendo nossa: um silêncio, mesmo que se trate de uma lição de música, que já não é o nosso, uma harmonia, uma ordem, uma ocupação do espaço, uma fruição dos objectos, uma luz, uma cor, uma suave e distante intimidade que, não sendo nossas, gostaríamos que fossem nossas.

Parece que voltamos de novo a nascer, indo os nossos olhos encontrar aquilo que desejaríamos mesmo ver, num mundo onde gostaríamos mesmo de entrar.


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