07 abril, 2009

IMAGINAÇÃO


Um dos livros que estou a ler é o Système de la Nature ou des Lois du Monde Physique & du Monde Moral, do Barão d'Holbach, texto de 1770.

A sua casa, em Paris, era uma daquelas em que se juntava a nata iluminista parisiense. O Isaiah Berlin conta (Ramin Jahanbegloo-Conversations with Isaiah Berlin), a este respeito, uma história engraçada. Um dia, estando David Hume em Paris, foi convidado para jantar em casa do Barão. Durante o jantar, o filósofo escocês pergunta se há algum ateu em Paris. O Barão responde: "- Há, estão 23 sentados à sua volta".

Nesta obra, há uma passagem de Holbach que me fez lembrar uma coisa que me aconteceu, em tempos, numa aula. Diz ele: "Écoutons néanmoins les imputations que les théologiens font aux athés: examinons de sang-froid et sans humeur les injures qu'ils vomissent contre eux: il leur semble que l'athéisme soit le dernier degré du délire de l'esprit (...)".

Há muitos anos, durante uma aula minha, discutia-se o problema da ressurreição de Cristo. Uma aluna, católica e cheia de fé, aceitava o facto sem qualquer migalha de dúvida. Entretanto, fui solicitado para dar opinião.

E lá estive a expor, pensando no Tratado Teológico-Político, de Espinosa, o que pensava acerca dos milagres, do sobrenatural, dos mistérios. E que a história da ressurreição estaria muito mal contada, ou seja, se chegou a haver, de facto (não sei se houve), o desaparecimento do corpo de Cristo, para mim fazia mais sentido os amigos terem lá ido tirá-lo depois de darem duas marretadas nos soldados que o guardavam, do que a ideia de ter viajado até ao céu depois de morto e sobretudo depois da pancada que levou e do tempo que passou na cruz a perder sangue e energias.

A aluna, com aquele ar espantado de quem acaba de ouvir a coisa mais estapafúrdia do mundo, sorri para mim e diz: " Ó professor, o professor tem cá uma imaginação!"

4 comentários:

marteodora disse...

A etiqueta deveria ter sido: HUMOR!

Adília disse...

A história tem realmente alguma graça, mas poderia ter aproveitado a oportunidade para levar a sua aluna a reflectir sobre a natureza da imaginação e a distinguir entre uma imaginação imatura e infantil e uma outra mais madura e desconfiada que aprendeu a confrontar-se com os factos e a não perder o pé da realidade. Desse modo até poderia ter acabado por concordar com a observação da sua aluna.

Anónimo disse...

Talvez a aluna já tivesse ouvido a espin(h)osa justificação que ofereceu. Talvez a aluna tivesse fé.
SaraCabeleira.

José Ricardo Costa disse...

Caríssima Sara,

A aluna só poderia mesmo ter muita fé. E se a fé move montanhas também é bem capaz de nos levar a acreditar no inacreditável.

JR