11 abril, 2009

GUERRA E PAZ - XV


Com o príncipe Andrei, o romance entre no território da subjectividade. Deixamos os factos, os puros factos, o barulho das explosões, a azáfama das tropas, a altiva cavalaria a gozar com humilde infantaria e entramos na consciência de um ser humano como se o escritor dispusesse de um aparelho de TAC para a consciência humana.

O príncipe está na Áustria a combater os franceses de Napoleão. Depois de uma batalha na qual participa, Tolstói conduz-nos directamente ao interior da sua alma:

"A noite estava escura, estrelada; o caminho por entre a neve que caíra na véspera da batalha, parecia negro (...) Mal fechava os olhos, soavam aos seus ouvidos os tiros das espingardas e dos canhões, fundindo-se com o tamborilar das rodas e a impressão da vitória. de repente, começava a imaginar que os russos recuavam e que ele próprio estava morto; mas depressa acordava, descobrindo, feliz, que não acontecera nada disso e que, pelo contrário, tinham sido os franceses a ser postos em debandada. Voltava a recordar todos os pormenores da vitória, a sua própria coragem tranquila durante a batalha e, acalmado, caía em modorra... Depois da noite escura e estrelada, chegou uma manhã clara e alegre", Livro II, cap. 9

Eu gosto muito de fazer isto: estar dentro de água, numa praia cheia de gente, com muito barulho, muitos gritos de crianças, motores de barcos a martelar nos ouvidos e, de repente, ficar completamente debaixo de água, mergulhando num absoluto siêncio. Depois, voltar novamente à superfície. E o silêncio de novo.

Tolstói, nesta passagem, mostra-nos a consciência do príncipe Andrei mergulhada debaixo de água. Ele pensa na batalha da qual acabou de regressar, "ouve" os barulhos da batalha, mas já num domínio de puro silêncio, na solidão do seu quarto. Mas, ao mesmo tempo, Tolstói, de uma forma magistral de um ponto de vista de técnica narrativa, mostra-nos a brutalidade da guerra através do interior da consciência de um militar.

Por um lado, quando diz que o príncipe, mal fecha os olhos, começa a ouvir os sons brutais da batalha. Como se se tratasse de um som indelével que jamais se apaga. Ele está no silêncio, no silêncio do seu quarto, é verdade, mas o silêncio, o verdadeiro silêncio, já não existe. Depois da guerra, já não é mais possível o silêncio.

Mas, mais brutal ainda, é quando o príncipe Andrei começa a imaginar que está morto e descubre, feliz, que afinal estava vivo. Compreende-se perfeitamente: depois de ter estado no meio de soldados mortos e feridos espalhados pelo chão, dos gritos e gemidos, do sangue manchando o solo, do fumo, do barulho das espingardas e dos canhões, do relinchar dos cavalos, a sensação de estar vivo deve ser quase fantasmagórica. Depois de, durante horas, ter abraçado a morte, a pessoa é bem capaz de olhar para si mesma e ver um fantasma. Brutal.

1 comentário:

José Trincão Marques disse...

Bom texto.