27 abril, 2009

GUERRA E PAZ - XIX

Rothko, Center Tryptich for Rothko Chapel

" - Não, francamente, ma bonne amie, este vestido não te fica bem - dizia Lisa, olhando de longe e de lado para a princesa -, manda trazer outro, tens lá um cor de massaca! (...) Depois de duas ou três tentativas, a que a princesa Mária se sujeitava resignadamente, quando o seu cabelo foi repuxado para cima e lhe foi posto o vestido cor de massaca de gala e um cachecol azul-claro (...)." Livro III, capítulo 3

Eu nunca tinha ouvido falar numa cor chamada "massaca". Salvou-me o tradutor, numa nota, na qual explica que massaca é um vermelho escuro ou um carmesim azulado. Mas, mesmo assim, não adianta muito. Eu sei o que é "vermelho", sei o que é "escuro", sei o que é "vermelho escuro", mas continuo a não entender o que é "massaca". É como se fosse uma palavra estrangeira cujo significado não consigo apreender.

Mas não é a mesma coisa. Se uma pessoa que não sabe inglês ouvir a palavra "hammer" não lhe virá qualquer referência à cabeça. Passa-se na sua cabeça o mesmo que se passaria se ouvisse a palavra " shrink". Nada. Mas a pessoa sabe o que é um martelo. Só não sabe associar a palavra "hammer" ao objecto "martelo" ou à palavra "martelo".

Com a cor passa-se uma coisa diferente. Não é o mesmo que se passaria com a palavra "green" ou "yellow" com a pessoa que não entende inglês. É uma cor que não conhecemos apesar de a vermos. Parece simples, pois é coisa que acontece muitas vezes em inúmeras situações: podemos passar todos os dias junto a uma casa onde há aquelas flores cujo nome não sei. Conheço as flores, vejo-as todos os dias, gosto delas, mas, se vir o nome daquela flor num livro, direi que não sei de que flor se trata. E o mesmo se pode passar com uma ferramenta ou uma parte do meu corpo estudada pela anatomia.

Mas, insisto, eu sei que a massaca é vermelho escuro. Mas se me perguntarem de que cor é aquela camisola, direi: vermelho escuro, e não, massaca. Mas quem sabe que cor é a massaca, dirá que é massaca e não vermelho escuro. Ok, diremos então que vermelho escuro e massaca são sinónimos. Mas serão?

Imaginemos que não adquirimos a noção de "branco-sujo". Se tal acontecesse, nós estaríamos a ver uma camisola "branco-sujo" mas não veríamos o "branco-sujo",veríamos apenas o "branco". E o creme? E o branco-pérola? A mesma coisa. Cores diferentes mas que, sem as respectivas noções, reduzir-se-iam todas a "branco".

E quem diz cores diz certos objectos. Imaginemos que estamos no consultório de um dentista e vemos três tipos de pinças. Para o dentista serão três pinças com três nomes distintos. Mas, se nos perguntarem, perante cada uma delas: "o que é isto?", nós responderemos: "uma pinça", "uma pinça", uma "pinça".
O nome da rosa, afinal, tem mais importância do que muitos julgam.

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