08 abril, 2009

GUERRA E PAZ - XIV


O final do capítulo 7 do livro 2 dá-nos uma situação à qual eu sou sensível. O melhor é mesmo lê-la:

"Os soldados de infantaria, obrigados a parar na lama remexida à entrada da ponte, com aquele ar especial e antipático de alheamento e ironia que se nota quando armas diferentes se encontram, olhavam para os hussardos limpos, janotas e bem alinhados que passavam por eles.
- Que bem ataviados! Prontos para a feira!
-Uns inúteis! Trazem-nos só para se exibirem! - dizia outro.
- Atenção, infantaria, não façam poeirada! - brincou um hussardo, cujo cavalo, a dançar, salpicou um soldado de lama.
- Fazia-te era marchar a pé duas jornadas com a mochila ao lombo, que até as correias se te rompiam - respondeu o soldado, limpando a cara com a manga -, pareces um passaroco qualquer, e não um homem!
- Gostava de ver o que parecias tu montado num cavalo, Zíkin - gritou um cabo para o soldado derreado sob o peso da mochila.
- Mete uma moca entre as pernas, já tens cavalo - disse um hussardo."

Estes homens que se agridem mutuamente estão do mesmo lado. São russos que combatem as tropas napoleónicas. Mas há aqui uma enorme tensão entre eles. Ou seja, no mesmo lado da barricada existem conflitos de classe e de posição marcados por uma hierarquia que é determinada pela posse de cavalo. Ora, do outro lado, do lado dos franceses, há-de acontecer o mesmo.

Significa isto que há russos da infantaria que se identificam mais com franceses da infantaria, enquanto os russos que montam a cavalo ocupam uma posição social que faz com que se identifiquem mais com os franceses da mesma posição.

Pela lógica, deveríamos ter russos e franceses a combaterem russos e franceses. Mas a guerra, estamos todos fartos de saber, está bem longe de se tratar de um exercício de lógica.

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