03 abril, 2009

ENTUSIASMO PRECOCE


William Warre foi um militar inglês que veio combater ao lado das tropas portuguesas aquando das Invasões Francesas. Nasceu no Porto, onde o pai estava ligado ao negócio do vinho do Porto, e aí viveu parte da sua juventude antes de ter seguido a carreira militar em Inglaterra. Regressando a Portugal para combater, escreve várias cartas ao pai nas quais vai fazendo alguns comentários interessantes sobre o facto de em Lisboa não haver vida social, da ópera estar fechada por falta de fundos ou acerca das senhoras da aristocracia rural que não lavam a cara nem penteiam o cabelo e cuja sujidade corporal é disfarçada ”com alguns modos e lantejoulas”.

Mas o que agora me interessa é esta passagem: ”Os portugueses são cerca de 28 mil, mal armados, e menos entusiásticos com a causa da guerra do que os seus vizinhos espanhóis, apesar de se vangloriarem muito”.
De facto, uma das coisas que caracterizam os portugueses é uma certa bipolaridade relativamente às suas causas. Quando se metem nalguma coisa os portugueses fazem sempre um grande espalhafato, parecem as pessoas mais empenhadas do mundo, muita emoção, muita motivação, muitos risos ou lágrimas e mãos dadas. Depois, vai esmorecendo, esmorecendo e…desaparece.

Lembra-se da campanha a favor de Timor? Das vigílias nocturnas? De uma Lisboa inteira parada para receber D. Ximenes Belo? Dois dias depois já ninguém se lembrava de Timor. Ora, é assim com tudo. Ok, é assim com quase tudo, estava-me esquecer do futebol cujas discussões demoram semanas ou meses.
Enquanto os espanhóis levaram a guerra a sério (assim como os franceses e os ingleses), os portugueses eram do género vou ali e já venho. Quer dizer, lutam, matam, esfolam mas não lutam, matam e esfolam com o mesmo empenho e entusiasmo dos outros.

É por isso que nunca poderíamos ter em Portugal uma guerra civil como a espanhola. Assim uma coisa mesmo a sério. É claro que temos momentos na história em que lutámos, matámos e esfolámos com alguma alegria e motivação. Veja-se a matança dos judeus em Lisboa, a guerra civil entre liberais e absolutistas, a guerra colonial ou os discursos do dr Santos Silva. Mas é uma coisa que passa depressa. Mal nos distraímos, voltamos logo àquela tão portuguesa impotência.

Daí darmos tanto valor às discussões futebolísticas sobre o penalty e o fora-de-jogo mais o telefonema do Pinto da Costa e a conferência de imprensa do vice-director da Associação de Futebol de Braga na qual critica o tesoureiro-adjunto do Cabeceirense por causa de um jogo de juniores entre o Cabeceirense e o Silvares.

É tudo uma compensação, uma forma de sublimar a nossa falta de empenho e entusiasmo nas coisas que galvanizam um europeu normal. E o que é um europeu normal? É toda o europeu que não é português. Ora isto não é necessariamente mau. Tivesse o Hitler nascido em Portugal e o mais que poderia ter sido na vida era tesoureiro-adjunto do Cabeceirense. O mundo teria agradecido.

Jornal Torrejano, 3 de Abril 2009

2 comentários:

Rosa Oliveira disse...

José Ricardo, passei apenas para lhe dizer que me delicio a ler o envolvimento que traduz nas questões que aqui coloca.
Fantástico.

pedro costa disse...

ola