14 abril, 2009

CLASSIC NOUVEAUX


Esta interessante entrevista fez-me lembrar a célebre carta de Maquiavel a Francesco Vettori quando se encontrava no seu exílio campestre:

"À tarde volto para casa. À entrada do escritório dispo as roupas sujas e enlameadas para vestir roupas de corte real ou pontificial; assim honradamente trajado, entro nas antigas cortes dos homens da antiguidade. Aí recebido com afabilidade por eles, nutro-me do alimento, que é por excelência o meu e para o qual nasci. Não me envergonho de falar com eles e interrogá-los sobre o motivo das suas acções e eles, em virtude da sua humanidade, respondem-me. E durante quatro horas não sinto o menor aborrecimento, esqueço todos os meus tormentos, deixo de temer a pobreza, a própria morte não me perturba".

A actual desvalorização ou até mesmo desprezo pela cultura clássica representa, para nós, ávidos de modernidade, um suicídio civilizacional. Aprender Grego e Latim era muito mais do que aprender Grego e Latim. Significava um contacto próximo com autores que, muito anos de nós, perceberam tudo o que havia para perceber e que nos deram as referências conceptuais, morais, científicas e estéticas com as quais, durante séculos, conquistámos o mundo.

Ainda há pouco tempo, numa aula, para explicar a relação entre a Ética, o Direito e a Política, comecei pela Odisseia. Pela ilha dos ciclopes. E os alunos entenderam tudo direitinho porque Homero escreveu para que, milhares de anos depois, fosse entendido. Mas quem diz a Odisseia ou a Ilíada, diz a Bíblia, que já nem os próprios cristãos lêem.

Se os actuais políticos se preocupassem em formar pessoas com um nível cultural e intelectual mais elevado, fariam um bom serviço às suas pátrias. Mas, assim, formando manadas de jovens estúpidos e analfabetos, farão um bom serviço a um certo poder social, político e económico que só tem a ganhar com isso.

4 comentários:

jose albergaria disse...

As férias escolares, ao que nos deixa ler, fizeram-lhe bem.
Está muito assertivo e certeiro, nos seus postes.
Creio, você que é um cultor de Borges, que foi o "cego" argentino que terá dito:-"Os gregos descobriram tudo. Nós, agora, andamos a a reinventá-los."
Contudo, para minha felicidade e para quem não pôde aprender o grego e o latim, temos belíssimos tradutores: Maria Helena da Rocha Pereira (grego e latim) e o Frederico Lourenço (grego), só para citar estes.
Espero bem, que na sua aula, tenha utilizado a tradução da Odisseia, que o F.L. fez para a COTOVIA.
Abraço,
J.A.

José Borges disse...

Nenhuma tragédia grega supera esta tragédia que é viver num presente que assassina as suas referências.

Este ano vou ter a honra e o prazer de ir ao ventre da civilização fisicamente. Espiritualmente nunca saímos de lá, não é assim?

Devo dizer que ainda ontem estive a ler Parménides de Eleia e não conseguia deixar de pensar no prazer que aquela leitura me estava dando.

Eu li as traduções do Frederico Lourenço, tanto da Odisseia como da Íliada e creio que apesar do infortúnio que é não ter conhecimento de latim e grego (e do hebraico, mas isto já é ir longe de mais), não perdi muito, pois achei estar perante um tradução magistral.

Xantipa disse...

Vou roubar!
Beijinhos

addiragram disse...

100 por cento de acordo!