25 abril, 2009

CHUVA

Do fascismo propriamente dito, do que me lembro melhor é da chuva. Se alguém me pedisse para dizer a primeira coisa que me viesse à cabeça perante a palavra "fascismo", seria forçosamente "chuva".


Criança ainda, a minha imagem mais forte do fascismo são aqueles chuvosos finais de domingo que antecipavam uma semana na escola nas mãos e olhos pérfidos do professor Lagarto, uma mistura de professor e de ogre que esperava por nós diariamente no seu castelo amladiçoado. Os inícios de domingo, ainda que chovesse, eram um espaço de liberdade: um dia sem ter de olhar para o mórbido crucifixo ao fundo da sala ou para os mapas das colónias pintados de um cínico colorido. Um domingo de brincadeira, em que a nossa alma não era lavada, esfregada, centrifugada para, finalmente, ser posta a secar ao vento.


E a angústia estava exactamente aí: na percepção de que, no fim de cada domingo, quando a escuridão já fazia adivinhar as trevas que desciam sobre as nossas vidas, a liberdade chegava ao fim, e em que a chuva, com a sua maldita humidade, passava a criar bolor numa alegria que degenerava facilmente em angústia.


É engraçado. Hoje, por muito que pense no fascismo de um ponto de vista político económico, social, económico, cultural, é sempre a imagem da chuva que prevalece. A chuva não é, neste sentido, nem um conceito, nem uma sensação: é ambas as coisas. A chuva, enquanto forma pessoal e íntima de lembrar o fascismo, tal como certos cheiros ou sabores, dá-me ao conceito de fascismo uma imagem ou sensação. Ao pensar nos obscuros finais de domingo, a chuva permite juntar o pensamento e a sensação numa única gaveta.
Como nunca fui preso, censurado, torturado, exilado, o fascismo, para mim, está todo concentrado naquela atmosfera fria, cinzenta e chuvosa que transformava a liberdade de domingo em angústia de domingo.


O 25 de Abril, por isso, teria de ser um cinzento e chuvoso: uma despedida, um epílogo, um pouco como aquilo que fazemos quando nos vamos embora de um sítio e, por uma última vez, viramos a cabeça para guardar uma imagem final. É por isso que o verdadeiro 25 de Abril não foi no dia 25 de Abril. O 25 de Abril a sério foi no primeiro 1ºde Maio. Nesse dia, lembro-me bem, o dia despertou com sol. E a chuva, nesse dia, não passou de uma inofensiva recordação. Tão inofensiva que já nem sequer precisava de um chapéu de chuva para a memória ter de se abrigar.

6 comentários:

marteodora disse...

Zé Ricardo,
nasci 3 anos antes do 25 de Abril de 1974,porém, ao ler este post recordei-me de imediato da sensação tristonha de andar na "escola primária". Ainda apanhei um tempo algo anacrónico para a época. Já havia "liberdade" mas era quase tudo igual...o crucifixo, a régua, os mapas e as caixas métricas, os rios, o relevo e as linhas de caminho de ferro, as províncias e os contos e lendas tradicionais de cada uma delas...as salas frias, escuras e a cheirar a bolor...a falta de conforto (humano),os Invernos rigorosos de ir para a escola a pé!
Não havia, para mim, felicidade alguma em ir para a escola. Detestei a escola primária. Para mim uma dura passagem (não havia colo).
Os dias que mais me marcaram: a entrada do Pápa João Paulo II no Vaticano; a morte de Francisco Sá Carneiro. Ah, e a ida ao quadro para calcular a área de um quadrado, a fim de a professora e a directora da escola aferirem da minha preparação para ir para o Ciclo Preparatório!
Curiosamente, agora de manhã, quando abri a janela, estava, lá fora, o chão todo molhado.
A seguir, veio um sol esplendoroso!
Bjs.

Alice N. disse...

Este dia enche-me o coração de alegria.

"Somos livres, somos livres! Não voltaremos atrás!"

Viva a liberdade!

marteodora disse...

Só um pequeno ajuste ao meu comentário.
Não é que me sinta mais velha, mas, por lapso, referi que nasci 3 anos antes de Abril 1974. Efectivamente, nem sequer tinha dois anos, uma vez que nasci em Junho de 1972. É só um pormenor, quase sem importância, mas fica aqui a correcção.

addiragram disse...

Esse retrato emocional em que aos conceitos se "colam" sensações primárias, é o que mais firmemente se inscreve em nós, pela sua autenticidade. Gostei tanto deste testemunho que lhe peço para o transcrever no "Aguarelas".Distando as nossas vidas alguns aninhos pude muito bem encontrar nas minhas memórias uma equivalente personagem, congénere do seu Prof.Lagarto- a D.Idalina que, sabendo-me, não católica, não apostólica, não-romana, me levava ao estrado da classe para ajoelhar e rezar virada para a classe inteira.E lá estavam o "mórbido crucifixo" e os odiosos mapas das colónias que eu resistia em memorizar.

José Ricardo Costa disse...

Margarida, isso deve ter sido um "acto falhado". De alguém de História que tem o desejo inconsciente de ter estado mais dentro da História.

Cara Alice N, "Somos livres, somos livres..."? Acco que chegou a altura de repensar a liberdade que temos.

Cara addiragram, be welcome! E pode ser que o professor Lagarto e a professora Idalina se encontrem por aí e juntem a sua infelicidade.

JR

Alice N. disse...

Caro José Ricardo,

No dia 25 de Abril, fico sempre assim. Amanhã, regresso à realidade!

:)

:(