23 abril, 2009

BASTA!




Num país há décadas governado pelo Bloco Central, assaltado pelo Bloco Central, espoliado pelo Bloco Central para favorecer as elites partidárias e respectivas clientelas espalhadas pelos mais variados sectores da vida política, económica, social e até cultural, será boa ideia ter presente o que diz Yves Charles Zarka, num texto chamado "Peut-on se Débarasser de la Raison d'État?", in " Figures du Pouvoir. Études de Philosophie Politique de Machiavel à Foucault", PUF.

Depois de explicar o que é razão de Estado enquanto acção do poder político que viola o direito comum, por exemplo, através do segredo ou da violência em nome da segurança social e do próprio Estado, Zarka reflecte sobre o sentido da razão de Estado nas sociedades democráticas, livres, abertas, transparentes, honestas perante o seu eleitorado. E apresenta várias possíveis aplicações dessa razão.

Numa delas, a última, afirma o seguinte:

" Finalmente, a invocação da razão de Estado pode ser igualmente o indício de crises que desta vez seriam univocamente as crises da própria democracia. Quais são essas crises? São as que põem em causa a forma democrática da sociedade política, isto é, as que conduzem directa ou indirectamente a uma destruição dos princípios da soberania do povo e do Estado de direito. (...) O governo pelas leis é igualmente uma força, mas esta força torna-se uma fraqueza quando o aparelho de Estado cai, mesmo após uma consulta eleitoral regular, nas mãos de castas partidárias. Poder-se-iam resumir numa fórmula essas crises da democracia: demagogia dos eleitos e despotismo dos nomeados. Quando a democracia dos partidos já não é mais do que uma luta pelo poder que tem como objectivo principal a repartição dos privilégios, das prebendas, das posições de força, dá-se uma crise interna da democracia e a desnaturação dos seus princípios fundadores. Não devemos, pois, espantar-nos com o facto de, neste contexto, ocorrer uma rápida propagação da indiferença da população pela política, desmobilização dos eleitores, perda de crédito dos partidos políticos ( ou seja, na realidade, das castas) que se apoderam, de uma ponta a outra, das alavancas do poder. O recurso à razão de Estado não tem então outra função que não a de desmascarar - mas ninguém- é enganado - a crise que atinge a própria democracia".

Naturalmente que, enquanto professor, jamais iria voltar a votar no PS, tal como o fiz nas últimas legislativas. Mas não é apenas enquanto professor. É enquanto português e cidadão. E quem diz o PS diz o PSD. O Estado tornou-se, há muito, demasiado tempo já, uma coutada destes partidos que usam e abusam e abusam da razão de estado, dos mesmos argumentos, dos mesmos ardis para continuarem eternamente no poder, à vez, sem perderem nunca o acesso aos privilégios, sobrepondo o interesse partidário ou pessoal aos interesses do país e do povo.

Chegou a hora de dizer basta!

2 comentários:

José Borges disse...

Devo-lhe dizer que há poucos meses decidi dedicar-me minimamente à política militante mas o que tenho visto deixa-me profundamente amargurado e descrente. E ainda que vá continuando com a minha actividade, faço-o com a maior das desconfianças e insegurança, porque é de facto um mundo triste. E esta terá sido a maior desilusao que apanhei nos últimos tempos, a maior estalada na cara...

jl disse...

Verdade que sim. Que tem razão. Absolutamente.
O preço da democracia está cada vez mais alto.
Mas eu tenho esperança de que o espírito de Abril há-de voltar.
Tem de voltar, antes que a ditadura se instale de novo.