21 abril, 2009

BEIJAR EM ABRIL




1938. António Ferro acaba de chegar de Londres e vai direitinho para Santa Comba para entrevistar Salazar, que aí gozava férias. Eis as palavras de Ferro a propósito do paraíso beirão:

" Que poderoso e pacificante contraste! Em vez da orquestração dissonante das buzinas em Piccadilly ou em Oxford Street, o silêncio luminoso de um recanto da Beira, acentuado pelas notas de música da passarada bucólica. Em vez do Claridge ou do Carlton, a casinha humilde, verdadeira choupana, do homem que dirige, diante do Mundo, os destinos de Portugal. Em vez do porteiro uniformizado, agaloado, que nos olha superiormente e nos pergunta o que desejamos, temos a senhora Maria, dedicada servidora do dr. Salazar."

Infelizmente, o deslumbramento de Ferro não é inocente como o de um poeta romântico que canta a natureza. É um deslumbramento trágico perante um Portugal atrasado, puro e imaculado.

Lisboa, dizem, tem uma luz única. Mas a luz da cidade-luz que é Paris não chegava até cá. O tempo em Portugal não era o tempo europeu, nem sequer espanhol. Era um tempo melancólico, quase medieval.

É por isso que estas duas fotografias, uma de Gérard Castello Lopes, feita em Lisboa, e a outra, de Robert Doisneau, em Paris, sendo próximas no tempo, estão a anos-luz de distância. A primeira mostra-nos um país tranformado numa escura e húmida viela, cheirando a vinho carrascão. Lisboa tem uma luz, é verdade, mas os lisboetas viviam numa cidade a preto e branco. Um povo complexado e com vergonha de existir. Um povo com medo de sentir e de pensar. Com medo de beijar.

Veja-se este esplendoroso e luminoso beijo dado numa rua de Paris em plenos anos 40.Um beijo que se dilui no próprio movimento alucinante de uma cidade que não pára e que nem sequer repara no beijo dos apaixonados. É também a diferença entre a mobilidade e o movimento.

Na fotografia de Doisneau não temos um espaço vazio mas um tempo que rodopia, indomável, livre, como um pedaço de papel em dia de ventania. Beijam-se os amantes em Paris enquanto dona Maria prepara o seu caldo de galinha no opressivo silêncio de Santa Comba Dão. Os amantes de Paris conseguem, com o seu beijo, parar o tempo mas um tempo que continua a girar sobre si próprio, com aquela insustentável leveza que se encontra na espuma dos dias.

Uma vez, ia eu a entrar para uma aula e vejo dois alunos meus a beijarem-se efusivamente. Quando entrei na sala disse-lhes que tinha ficado sensibilizado por vê-los beijarem-se daquela maneira no interior de uma escola quando, noutros tempos, as pessoas tinham que beijar às escondidas.

Eles não perceberam, nem sei sei se ficaram convencidos. Como não sei se ficariam convencidos se lhes tivesse dito que o 25 de Abril foi também o dia em que os portugueses aprenderam a beijar.

5 comentários:

Rosa Oliveira disse...

José Ricardo, pela primeira vez, encontro aqui, algo com o qual não concordo (se me permite...): os portugueses sabem beijar muito pouco ou quase nada, falam é muito do beijo e o Beijo de Doisneau, foi uma montagem para o retrato. Resta-nos o efusivo beijo dos seus alunos...

José Ricardo Costa disse...

Eu sabia que aquele beijo tinha sido encenado. De qualquer modo, isso é irrelevante. A arte não perde valor por ser artificial. Ao fim ao cabo, toda a arte é artificial. Neste caso, esta fotografia exprime claramente o que quer exprimir. A outra também.

JR

Alice N. disse...

Que contraste poderoso, de facto!

Concordo com o José Ricardo. Apesar de os protagonistas da foto de Doisneau serem actores e de o beijo ter sido encenado, esta fotografia é dotada de uma autenticidade e intemporalidade impressionantes: Paris era e continua a ser o que vemos naquela imagem. Poderiam ser outros os rostos. Continuaríamos a ter Paris.
O seu texto (sempre de uma eloquência admirável) lembrou-me outras fotografias marcantes e que testemunham igualmente esse plaisir et liberté de vivre ou, como diz o José Ricardo, a luz da cidade-luz. Lembro-me, por exemplo, de "Les amoureux aux Poireaux", igualmente de Robert Doisneau; também de uma foto de Cartier-Bresson, onde dois jovens namorados, sentados numa esplanada e acompanhados de um cão, se beijam apaixonadamente (não conheço o título). Também gosto muito de "Les Amoureux du Pont des Arts" de Willy Ronis (no livro autobiográfico "Ce Jour Lá", o fotógrafo descreve brilhantemente esta e outras das suas fotos mais emblemáticas). Enfim, a lista é quase interminável.
Felizmente, e não obstante o muito que nos falta caminhar, hoje, em Portugal, temos mais luz, mais cor e, não menos importante, mais beijos!

addiragram disse...

A beijo da foto de Doisneau é o pôr em arte uma ideia construída pelo seu autor, e essa ideia da liberdade do amor e dos sentidos estava acorrentada e riscada com o lápis azul em Portugal.
A espontaneidade e a força do beijo dos amantes, deixam-nos sempre em contacto com a Vida na sua indomável força. Neste passeio pelas Astúrias captei um desses instantes maravilhosos numa praça em Santillana del Mar.O amor é a mais poderosa das armas.
Gostei, uma vez mais, do que escreveu.

zemanel disse...

Por falar em beijos:
inesquecível a cena dos beijos cortados em "Cinema Paradiso"...