03 março, 2009

A PÓS-HUMANIDADE

Silva Porto, Estação de Caminho de Ferro à Noite, Museu Grão Vasco

Eu acho esta pintura fantástica. Uma pintura quase toda feita de escuridão excepto em três pontos. Três pontos feitos da mesma matéria: a luz. Uma luz subtil, tímida, desmaiada, que nunca chega a entrar em verdadeiro conflito com a escuridão que se lhe opõe.Mas sendo feitos da mesma matéria serão, formalmente, ou simbolicamente, bastante diferentes.

Temos, no centro, um vulto que quase se confunde com a escuridão e no qual apenas se vislumbra um rosto vagamente iluminado por uma lanterna. Do lado direito, temos a luz de um comboio que passa naquele instante. Do lado esquerdo, finalmente, a luz na parede de uma casa que dá para a estação.

Fascina-me aqui a tensão entre a luz estática da casa e a luz em movimento do comboio, um prodígio civilizacional na altura em que este quadro foi pintado, assim como a figura humana, também sinalizada pela luz, no meio desta tensão. Olha-se para o comboio e apetece entrar. Há, neste comboio, uma sugestão de viagem, de partida, de evasão. Entrar naquele comboio representa entrar numa luz em movimento e fazer parte dessa luz.

Mas, depois, há a casa. O conforto, a previsibilidade, o recolhimento, a segurança. A presença daquela luz dá-nos a segurança de um mundo onde nada se descobre mas no qual também pouco se perde. Claro que, neste caso, ontologicamente, a lanterna está mais próxima da casa do que do comboio. É uma luz feita da mesma substância da luz da casa e não da luz do comboio. Os comboios, com as suas luzes, vão chegando e partindo, chegando e partindo, chegando e partindo. A laterna, pelo contrário, fica sempre junto à casa, como se fossem dois velhos amigos que nunca se separam.

O homem que leva a lanterna, certamente um funcionário da estação, vive no meio desta tensão. É precisamente esta tensão que se pode encontrar na História. A tensão entre o que foge, está sempre a partir e o que permanece. Ora é aqui que se dá um choque inultrapassável. Nós não podemos estar no comboio e junto em casa em simultâneo. Se estamos em movimento, não podemos estar parados, se parados não podemos estar em movimento. É esta a tragédia. Se partimos, uma parte de nós tem de morrer. Se não partimos, há uma vida que não chega sequer a emergir.

Veja-se o caso dos povos sem história, povos que vivem do mesmo modo há séculos como se o tempo não existisse. Mas veja-se igualmente a febre futurista que se atira para o futuro como quem se atira para o abismo. A velocidade é tal que nem sequer se chega a compreender os destroços.

Há uma terceira alternativa que, à primeira vista, pode ajudar a encontrar uma solução: a do eterno retorno. A de ideia de uma viagem que gira em torno de um centro. Parte-se em viagem mas regressa-se sempre. Há uma palavra na língua alemã, com um enorme valor conceptual na filosofia hegeliana: aufhebung. Significa, ao mesmo tempo superação e conservação. No fundo, é isso que acontece na História. O problema virá quando desaparecer a ideia de conservação. É esse desparecimento que temos de evitar a todo o custo, embora me pareça que as coisas não estão a ficar fáceis. Evitar, a todo o custo, a pós-humanidade. Ou seja, ficar esta pintura toda escura, ficar esta estação completamente submersa na opacidade da noite, excepto na luz de um comboio em movimento sem estar preparado para parar.

1 comentário:

José Borges disse...

Eu por acaso tenho uma admiração enorme pela pintura do Silva Porto. Especialmente aquelas mulheres ceifeiras, dobradas pelo sol quente; ou aquela cena bucólica do pastor tão natural e verdadeira. Mas há um do mesmo período que me impressiona e comove sobremaneira, da autoria de Silva Pinto, intitulado 'Macieira partida' (se não me engano está no Soares dos Reis), um quadro duro.

Sei que o meu comentário não tem muito que ver sobre este seu post, mas no fundo talvez todos os quadros referidos partilhem e relatem casos concretos dessa necessidade de superar para conservar. (A primeira vez que tive contacto com a palavra ´aufhebung´ foi com a Hermenêutica de Ricoeur, «Teoria da Interpretação», lido obrigatoriamente na disciplina de filosofia no 12º na escola pública!)