30 março, 2009

THE PEEPING TOM


Lady Godiva, uma virtuosa mulher inglesa do século XI, era casada com o Conde de Leofric, um homem tirano e violento odiado pelo povo ao qual impunha pesados impostos. Lady Godiva queria que ele mudasse a sua atitude e se tornasse um homem bom. Este propôs-lhe então o seguinte: que LaDy Godiva atravessasse a cidade, em dia de mercado, completamente nua, em cima de um cavalo.

Segundo a lenda, nesse dia, toda a população ficou em casa, impedindo assim que o acto daquela santa e virtuosa mulher ficasse manchado pela vergonha. Ao que parece, a coisa resultou em pleno. Com uma única excepção: um homem houve que não resistiu à visão da nudez de lady Godiva e saiu à rua para a ver. Ficou conhecido por Peeping (espreita) Tom, tornando-se, deste modo, um símbolo do voyeurismo.

Michael Powell, em 1960, realiza um filme cuja personagem principal filmava mulheres, possuindo na extremidade da máquina de filmar uma lança. Desse modo, ao mesmo tempo que matava as mulheres com a lança, filmava as suas expressões de medo e de horror enquanto eram mortas. O filme chama-se " The Peeping Tom".

Não há dúvida que vivemos numa época em que somos cada vez mais Peeping Tom. Mas estamos de tal maneira dependentes das imagens que já nem reparamos nisso. Ver, ver, ver é a palavra de ordem. O que marca sobretudo a atitude de Peeping Tom é o não ser capaz de viver, compreender o mundo, de ser feliz, sem ver. Mas o ver de Peeping Tom, em vez de aproximar aquele que vê do outro que é visto, é um ver que, pelo contrário, afasta cada vez mais, isola, remete o sujeito para o exílio da solidão, do ensimesmamento, do ver sem ser visto.

Antes do cinema, da televisão e da fotografia, vivia-se uma vida inteira sem ver os rostos das pessoas. Sabia-se que o rei era D. João V mas não se conhecia o seu rosto. Também não há imagens da batalha de Aljubarrota e dos seus mortos e feridos espalhados pelo chão assim como dos seus familiares recebendo a notícia em casa. Em suma, a realidade não era real, no sentido em que para nós, hoje, é real.

Hoje o mundo está transformado num enorme peep show. Ler a Caras é como meter uma moedinha na cabine de um peep-show para abrir uma janela que nos leva à visão daquele que deveria estar resguardado na sua vida privada.

Ser voyeur é ser doente sem ser doente. O esquizofrénico é objectivamente um doente, clinicamente tratado e controlado. O voyeur, pelo contrário, não vai ao psiquiatra e não toma comprimidos. Trabalha, tem filhos, vai ao café, veste roupa de marca, vota de quatro em quatro anos, e até pode ser um empresário ou político.

Mas, sem se aperceber, o voyeur é conduzido a um paradoxo: quanto mais vê mais cego fica, mais obnubila a sua relação com o real, mais fechado fica na sua perversa e ilusória intimidade e na ilusão de participar na intimidade de um outro que ele nunca viu, ouviu ou cheirou. Este Peeping Tom, ao contrário do de Michael Powell, não mata o outro enquanto o filma. Mata-se a si próprio.

Uma sociedade de voyeurs é uma sociedade doente. E, para esta doença, não há oftalmologista que nos valha.

4 comentários:

José Borges disse...

Muito bem!

Já agora, acha que a sociedade se conseguirá purgar desta maleita?

José Ricardo Costa disse...

Não. Bem pelo contrário. A tendência será para piorar. Vejo aqui uma mudança de paradigma no modo de conceber o ser humano de acordo com o que, até aqui, encarámos como tal.

JR

addiragram disse...

Parabéns por este esplêndido artigo! Muito bem pensado e analisado. A vida privada não significa para estas pessoas intimidade, mas espectáculo que, já agora, pode ser vendido. Quem espreita imagina que pode ficar parecido com..."Veste-se" então com o papel do rebuçado-

de.puta.madre disse...

Ora, é a Industrialização da Curiosidade :-) ... A indústria chega a todos os sectores y defeitos y virtudes da humanidade ...
......
Mas nad como a gente saber uma nova "secreta" de quem é das nossas relações ;) essa é que é essa ... Vale.