22 março, 2009

O VALE SUÍÇO


Hölderlin, numa carta para a mãe datada de Janeiro de 1799, escreve o seguinte:

" (...) Durante muito tempo eu não sabia por que motivo o estudo da Filosofia, que costuma recompensar o tenaz esforço que requer com calma, só me tornava, quanto mais exclusivamente me lhe dedicava, cada vez mais falho de paz e até brusco; e agora explico-o a mim mesmo por me ter afastado num grau superior ao necessário da inclinação que me é própria, e o meu coração, dedicado ao trabalho que não lhe é natural, suspirava pelo seu afazer predilecto, tal como os pastores suíços, ao fazerem vida de soldados, sentem saudades do seu vale e do seu rebanho. Não chame a isto falta de realismo! È que, por quem sou, afinal, pacífico e bom como uma criança, quando calmamente e com doce ócio, me dedico ao mais inocente de todos os afazeres [a poesia] (...)".

Esta carta foi escrita pouco tempo depois de ter sido colega de quarto de Hegel no seminário de Tübingen e não muitos anos antes de ter enlouquecido. Desde cedo percebeu que não iria ter uma fulgurante carreira de filósofo como veio a acontecer com o seu colega de quarto. Hölderlin não nasceu para o árduo trabalho do conceito.

Do que eu gosto mesmo nesta passagem é da analogia. Enquanto filósofo, não seria mais do que soldado sem paz, longe da tranquilidade do seu vale e do rebanho. Enquanto filósofo, vestiria uma farda, com a qual não se identificaria, para um combate conceptual e especulativo com a verdade. Daí ter preferido dedicar-se "ao mais inocente de todos os afazeres".

Terá chegado alguma vez a perceber que a poesia que escreveu foi um combate bem mais feroz? E que não há nada que impeça um filósofo de viver tranquilamente a sua vida de pastor num sereno vale suíço apascentando as suas serenas ovelhas?

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