27 março, 2009

METAFÍSICA MADE IN PORTUGAL

George de La Tour - Os Jogadores de Cartas

Na secção de padaria de um supermercado, fui dar com o seguinte cartaz: “Informamos os nossos clientes que o preço do pão se manterá rigorosamente igual nos primeiros meses do ano”.

Mas que história é esta de uma coisa ser “rigorosamente igual”? Igual é igual! Não há coisas mais iguais e menos iguais. Ninguém diz que 2+2 é mais igual a 4 do que 3+3 igual a 6. Uma coisa ou é igual ou não é igual. È assim desde Parménides e confirmadíssimo por Leibniz.

Há coisas mais parecidas ou menos parecidas. Por exemplo, José Sócrates é mais parecido com o sr Oliveira da Figueira das aventuras de Tintin do que Maria de Lurdes Rodrigues com uma ministra da Educação. Manuela Ferreira Leite é mais parecida com Margaret Tatcher do que Armando Vara com o Frei Bento Rodrigues. Mas parecido é parecido, igual é igual. “Parecido” é como o azeite ou o vinho: tem grau. “Igual” é como o vazio: não tem grau.

Não bastaria então dizer: “Informamos os nossos clientes que o preço do pão se manterá igual nos primeiros meses do ano”? Seria assim tão diferente?

Seria. Em Portugal, seria. Este “rigorosamente” deve-se, fundamentalmente, ao facto de os portugueses estarem habituados a ser enganados. Em Portugal nem sempre o que parece, é. Daí os portugueses terem uma relação algo desconfiada com a linguagem e com a própria verdade. Como se a linguagem fosse um processo intrinsecamente ambíguo e dissimulado. Os portugueses, graças às contingências da vida, parecem-se mais com os homens bicéfalos de que fala Heraclito do que com o filósofo platónico que sai da caverna para contemplar o arquétipo que é e não pode não ser.

Daí o “rigorosamente”. Os portugueses sabem que igual não tem de ser necessariamente igual. Depende. Depende do tempo, do humor, da imaginação, da melhor ou pior vontade das pessoas, da sorte, dos caprichos, do destino.

Outra frase que ouço com alguma frequência é dizer que uma certa coisa é um “bocado impossível”. Ora, não há coisas um “bocado impossíveis” ou “muito impossíveis”. A impossibilidade tem um valor absoluto. É absolutamente impossível estar em dois sítios ao mesmo tempo, beber ácido sulfúrico e depois ir fazer um exame de matemática, gostar do Vitalino Canas ou lá como se chama o raio do homem. Mas isto não são coisas um bocado ou muito impossíveis. São simplesmente impossíveis enquanto coisas não possíveis.

Mas cá está! A razão deve-se ao facto de, em Portugal, se ter a sensação de não haver impossíveis. De o impossível não ser bem impossível. Do mesmo modo que o possível tem vários graus (por exemplo, o grau de possibilidade de José Sócrates estar a mentir é mais elevado do que o grau de possibilidade de Manuela Ferreira Leite dizer alguma coisa divertida), também o impossível tem vários graus de possibilidade, o que, de um ponto de vista metafísico, não deixa de ter a sua complexidade.

Tivesse a metafísica nascido em Portugal em vez de ter sido na Grécia e a história do pensamento ocidental teria sido outra.
Jornal Torrejano, 27 de Março 2008

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