24 março, 2009

KANT EM MOSCOVO

"-Temos de lutar até à última gota de sangue - disse o coronel, dando um murro na mesa - e morrer pelo nosso imperador, e então tudo correrá bem. E raciocinar o me-e-enos possível (esticou o "menos"), o me-e-enos possível - concluiu, voltando-se de novo para o conde." Tolstói, Guerra e Paz, Livro I, capítulo 16

Terá o escritor russo lido Kant? O Kant que diz (Resposta à Pergunta: O que é o Iluminismo? - 1784):

"É tão cómodo ser menor. Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um director espiritual que tem em minha vez consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., então não preciso de eu próprio me esforçar. Não me é forçoso pensar, quando posso simplesmente pagar; outros empreenderão por mim essa tarefa aborrecida.
(...)
É, pois, difícil a cada homem desprender-se da menoridade que para ele se tomou quase uma natureza. Até lhe ganhou amor e é por agora realmente incapaz de se servir do seu próprio entendimento, porque nunca se lhe permitiu fazer uma tal tentativa. Preceitos e fórmulas, instrumentos mecânicos do uso racional ou, antes, do mau uso dos seus dons naturais são os grilhões de uma menoridade perpétua.
(...)
Mas agora ouço gritar de todos os lados: não raciocines! Diz o oficial: não raciocines mas faz exercícios! Diz o funcionário de Finanças: não raciocines, paga! E o Clérigo: não raciocines, acredita!"

1 comentário:

José Trincão Marques disse...

Provavelmente leu «A Arte da Guerra» de Sun Tzu: «Confronta os teus soldados com o facto consumado; nunca os deixes conhecer o teu propósito.»
Nota do tradutor da edição inglesa, Lionel Giles: «Literalmente não lhes digas palavras, isto é, não justifiques nenhuma das tuas ordens».
Também em Portugal, desde sempre, foi uma frase feita para os soldados: «Você não está aqui para pensar, mas para obedecer».
Ou seja, os princípios gerais da instituição militar são universais e não se modificaram muito desde os tempos mais remotos.