25 março, 2009

HEIDEGGER

Van Gogh - Botas Velhas com Cordões

Eu sempre embirrei com Heidegger. Fiz todo o meu curso sem nunca ter pegado nele e não sinto que me tenha causado grande prejuízo. Mas a idade torna-nos indulgentes e mais tolerantes. Agora que caminho para a velhice pus-me a ler Heidegger e tem sido uma experiência proveitosa. Mais concretamente, o Heidegger que escreve sobre a técnica e, por oposição, a importância radical e existencial dos poetas. Há quem o considere reaccionário por isso. Por ter resistido a uma certa ideia de modernidade e fazer a apologia de certos padrões arcaicos ou pré-industriais e tecnológicos.

Tenho aqui à minha frente o belíssimo livro que o filósofo alemão escreveu sobre os Hinos de Hölderlin, onde diz que a luta pela poesia no poema é a luta contra nós próprios. Porquê?

"Na medida em que na trivialidade quotidiana do ser-aí, estamos expulsos da poesia, estamos sentados na praia cegos, coxos e surdos e não vemos nem ouvimos nem sentimos a ondulação do mar" Hinos de Hölderlin, Instituto Piaget, p. 30

Não é só de nós próprios que a técnica nos expulsa. De certa maneira, expulsa-nos também do mundo. Estamos no mundo mas passamos por cima ou ao lado dele. Ler Heidegger lembra-nos a importância de um regresso a nós próprios e ao mundo. Voltar a pisar a terra, diria ele. Deus do céu, estou mesmo a envelhecer.

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