31 março, 2009

GUERRA E PAZ - XI

O início do Livro II, não sei se intencionalmente ou não, tem um enorme sentido de humor.
Outubro de 1805, as tropas russas juntam-se às austríacas para combater os franceses.Estamos, pois, nas vésperas do grande confronto. É muito engraçado apreciar enorme espaço dedicado pelo romancista à aparência dos soldados:
p. 155: "E os soldados, depois de terem feito trinta verstás seguidas de marcha, sem dormirem durante toda a noite, remendavam e limpavam a farda. (...) cada qual conhecendo o seu lugar, a sua tarefa, com cada botão e cada correia no lugar e brilhando de limpos. Não só a farda estava numa ordem perfeita, mas se o comandante-em-chefe desejasse espreitar para dentro das fardas veria em todos os homens camisas limpas (...).
p. 156: "(...) o comandante- em-chefe queria ver o regimento tal qual se apresentava em marcha - com os capotes e as capuchas sem preparativos".
p. 157: " (...) os soldados deviam estar de capotes e capuchas e que, no caso contrário, o comandante-em-chefe ficaria desagradado."
p. 157: "(...) o estado dos capotes não era bom(...)."
p. 157-158: "-O que é isto? Mas o que é isto? - gritou, parando. (...) Não tarda, está a vesti-los de sarafans, não [vestido usado pelas camponesas russas]?"
p. 158: "Eu já lhe digo como é isso de vestir os soldados com casaquinhos".
p. 158: "Quem é aquele ali vestido à húngara? - ironizava com severidade o general."
p. 158: " O soldado tem de vestir como todos, de acordo com o regulamento".
p. 158: "Faça favor de vestir os seus homens convenientemente..."
p.159: " Depois de descompor um oficial por uma insígnia pouco limpa e um outro pela formatura imperfeita (...)".
p.159: "- Porquê um capote azul? (...) - Faça o favor de mudar o capote, peço-lhe".
p. 161: "Abanando várias vezes a cabeça com tristeza, lançava olhares ora para as botas, ora para o general austríaco (...)".
p. 161: "(...) reconhecendo o capitão de nariz vermelho por causa do capote azul".
p. 162: " Já com o capote cinzento regulamentar, Dólokhov não esperou até ser chamado".
p. 164: " (...) tem uma visão melhor que a tua, olhou para tudo, para as botas, para as grevas..."
p. 164: "E o outro, o austríaco que estava com ele, parece que o pintaram de giz... Branquinho como a farinha! Credo, como eles devem limpar aquelas fardas!"
Eu acho que Tólstoi só pode estar mesmo a brincar, fazendo, digamos assim, algum humor negro. Nós imaginamos aqueles soldados, dentro de muito pouco tempo, mortos ou feridos no campo de batalha. As suas fardas rotas, enlameadas ou pintadas com o próprio sangue.
Porquê, então, esta preocupação com as cores das fardas, o brilho, as botas engraxadas em quem se prepara para morrer? Ora, não é também isso que se passa quando se veste alguém para descer à terra? Não se penteiam os mortos e não se lhes vestem as melhores roupas, antes de serem comidas pela terra e pelos bichos? Fantástica analogia, repito, não sei se intencional ou não. Mesmo não o sendo, é sempre uma fantástica analogia.

2 comentários:

José Trincão Marques disse...

Eu vejo isto de outro ângulo. Eu fiz tropa no exército. Apercebi-me bem da mentalidade e do espírito militar. Dei por mim muitas vezes fardado a marchar, a fazer ordem unida ou exercícios e a pensar que aqueles actos que praticava e a sua «filosofia» subjacente tinham centenas de anos.
A tropa é uma instituição secular (no sentido de ter muitos séculos), onde imperam o rigor, a disciplina, o esforço e o sacrifício. Só assim se poderá alcançar a «glória», que é vencer o inimigo. Ou seja, a preocupação com o traje e com a aparência está relacionada com a vida e não com a morte. Com a vitória e não com a derrota.

José Ricardo Costa disse...

Sim, claro. Eu não estou a defender a tese de que a obsessão do pessoal na tropa pelas botas e os botões a brilhar tenha que ver com o facto de irem limpinhos para a matança como os mortos vão limpinhos e vestidinhos para o cemítério.

O que eu quero dizer é que o romancista, provavelmente de um modo consciente e intencional, consegue motivar este pensamento. Aliás, essa é uma das riquezas da literatura (ver artigo do D. Murcho, ontem, no Público)de um ponto de vista cognitivo.
JR