30 março, 2009

GUERRA E PAZ - X

Diz a princesa Mária para o seu irmão, o príncipe André:
- Custa-me só uma coisa...digo-to com franqueza, André... é o modo de pensar do pai no aspecto religioso. Não compreendo como um homem com um intelecto tão grande não veja aquilo que é claro como a luz do dia, como possa enganar-se desta maneira! Apenas isso é a minha desgraça. Mas, também neste aspecto, vejo que está a ficar um pouco melhor." Guerra e Paz, livro I capítulo 25


Estas palavras da princesa são muito interessantes. Ao usar expressões como "intelecto tão grande" ou "não veja aquilo que é claro como a luz do dia", ou ainda "como possa enganar-se desta maneira" para caracterizar o pai de um ponto de vista religioso, dá ideia que o pai será uma pessoa profundamente religiosa, enquanto ela, pelo contrário, teria uma visão racional do mundo.
Pois. Mas é precisamente o contrário. O pai, o príncipe Bolkônski, é uma pessoa que diz que só há duas fontes dos defeitos humanos: a ociosidade e a superstição. A grande tristeza da princesa deve-se precisamente ao facto de o pai ser uma pessoa pouca religiosa. Ora, é neste sentido que as palavras da princesa, mais do que interessantes, são surpreendentes. Mostram até que ponto, as mesmas qualidades e defeitos tanto podem servir para defender uma coisa como a sua contrária.

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