21 março, 2009

A ERA DO PÓS-BAILE


" Enquanto os pares ocupavam os seus lugares e os músicos afinavam os instrumentos, Pierre sentou-se com a sua pequena dama. Natacha estava absolutamente feliz: dançava com um adulto, com um recém-chegado do estrangeiro. Estava sentada à vista de todos e era como adulta que falava com ele. Tinha na mão um leque que lhe emprestara uma menina. E, tomando uma pose das mais aristocráticas (só Deus sabia onde e quando a aprendera), Natacha, sorrindo por trás do leque e abanando-o, conversava com o seu cavalheiro." Tolstói, Guerra e Paz, Livro I, cap. XVII

Eis um mundo que desapareceu. Não com as guerras napoleónicas, não com a revolução russa, não com as duas guerras mundiais, não com o rock dos anos 60 ou 70. Este mundo, no qual uma jovem que está a sair da infância para entrar na vida adulta se sente orgulhosa e feliz por dançar e conversar com um adulto num acto público, foi desaparecendo com as novas rotinas profissionais, mas sobretudo com o impacto das novas tecnologias e o triunfo da juvenilidade.

Hoje, os jovens vivem num mundo fechado sobre si próprio e num processo de auto-aprendizagem e de auto-iniciação. Até a própria escola se organiza e estrutura em função dos ritmos e desejos juvenis, num processo de regressão e imbecilização que nos pode custar muito caro num plano civilizacional. Antigamente, o jovem batia à porta dos adultos para tentar lá entrar. Hoje, os jovens já não vão a bailes para poder debutar. Hoje, como se sabe, os jovens gostam de dançar sozinhos enquanto vão ensurdecendo com o ruído da música.

3 comentários:

José Borges disse...

Sempre quis ser velho, não adulto, mas velho, porque relacionava a velhice, carinhosamente, com a sabedoria e a experiência, porque desejava entrar num domínio que me parecia impossível atingir, pelo que parecer velho seria o primeiro passo para ser respeitado e admirado. Isto é absurdo, já que de onde eu venho os bailes debutantes se faziam enquanto eram descascadas as espigas de milho. Que sabedoria poderia eu então admirar e querer alcançar?

E por isso concordo consigo. Como dizia alguém há uns tempos, 'a infantilização é um dos fenómenos da contemporaneidade'. Ora, uma sociedade que tenha a tal 'juvenilidade' como referência, baseia-se em si mesma e perde as bases sólidas sobre a qual se sustenta.

É engraçado, tenho andado a ler «As palavras» de Sartre e a certa altura ele diz que os pais vão trabalhar e que deixam os filhos com os avôs, e que é sobre este lapso temporal e geracional que se constroi o futuro. Isto já não é assim, hoje os velhos são chatos e estão nos lares. Às vezes, em Lisboa sobretudo, espanto-me com a dignidade e decência de muitas pessoas idosas, e tenho o desejo de vir a ser assim.

Numa conversa com um amigo julgo ter usado a expressão 'as primeiras gerações perdidas', e isto numa altura em que, como diz George Steiner, 'não temos mais começos', só pode ser profundamente trágico.

jose albergaria disse...

Eu sou um velho de 62 anos.
Cultuo uma máxima do meu "irmão" R.R.:"Verdaiero sábio não é o que muito sabe, mas o que está sempre disponível para aprender."
Estou director de um museu de ciência e trabalho com doze pessoas, cujo intervalo etário vai dos 21 aos 29 anos.
Aprendo, todos os dias, com eles. Consideram-me, naturalmente,como o CHEFE. Pedem-me amiúde opiniões, conselhos, sugestões e ouvem-me sem me interromper...até ao fim.
Dou aulas, de formação a taxistas, para habilitação profissional. As faixas etárias dançam entre os 20 e os 65 anos. É uma outra experiência e uma outra epifania, em termos de experiência afectiva.
Eu, sempre trabalhei com afectos. Hoje, um poucochinho mais sábio, trabalho com a trilogia dos gregos:Ethos, Pathos e Logos.
Nunca, mas nunca me deixo escorregar para "generalizações": "os jovens", "as mulheres", "os americanos", "os comunistas", "os políticos", "os principes da igreja", "os católicos".
Sou, ou tento ser, humilde e modesto no uso dos meus saberes e das minhas competências criticas.
Eu já tive pouca idade e olho para os meus filhos, de 29 e 16 anos com os olhos do amor, da fraternidade e da verdade.
Sou um velho e um pai apaziguado.
J.A.

Malditos Patos disse...

girvblog divino!