15 março, 2009

AFINAÇÃO OU DESAFINAÇÃO?



"E isto para não falar da inevitabilidade de ter de se ir a uma sala de concertos, ao vivo, começando por aquele ritual inicial das afinações dos diferentes instrumentos..."

Esta frase do Acácio, retirada daqui, levou-me a pensar nalgumas diferenças entre os clássicos e os contemporâneos. Ainda que não se seja melómano, ainda que não se tenha o ouvido educado (como é o meu caso), é impossível não se gostar da 9ª sinfonia. Mesmo para uma pessoa que pior do que não ter o ouvido educado, o tem deseducado, torna-se impossível reagir mal aos acordes, não apenas da 9ª mas de grande parte dos clássicos. Em última instância, mesmo que não se aprecie especialmente, há, inevitavelmente, a consciência de uma seriedade estética e artística. Sempre que falo de música clássica aos meus alunos não dou por reacções negativas, ainda que eles não percam 5 minutos das suas vidas a ouvi-la. E o mesmo se passa com a pintura clássica, a escultura, a literatura e a arquitectura também clássicas.

Por que razão, hoje, grande parte da música erudita que se faz, surja aos ouvidos das pessoas como os sons do "ritual inicial das afinações dos diferentes instrumentos"? E o que é válido para a música, é válido para a pintura, a escultura, a literatura ou a arquitectura. Há, claramente, um divórcio entre a arte moderna e o público, ainda que se trate de um público alfabetizado.

Em Serralves, no Porto, não se paga entrada ao domingo de manhã. Das três vezes que lá fui (por acaso, sempre ao domingo de manhã) vi famílias inteiras a passear por aqueles enormes salões, olhando, perplexas, para as obras que ali vão sendo expostas. As pessoas olham mas não entendem. Algumas riem-se, mas a maioria, tendo certamente vontade de rir (eu tive várias vezes vontade de rir), não o fará certamente por pudor ou por achar que é estúpida e que o problema está nelas e não nas obras. Porém, se todas aquelas pessoas fossem, de repente, transferidas para o Louvre, o Prado, a National Gallery ou o museu do Vaticano, iriam certamente reagir de maneira diferente.

Eu não sou, no que diz respeito à arte, conservador ou reaccionário. Gosto muito de arte contemporânea nas suas diferentes expressões. Mas também estou certo de que se vende muito gato por lebre e que há muita infantilidade e vazias mistificações. Poder-se-á dizer que, hoje, muitas obras que no seu tempo foram incompreendias e até provocaram escândalo, têm um valor consensual e o aval das massas. A este respeito, é habitual dar-se o exemplo dos impressionistas. Sim, é verdade. Mas duvido que muita obra que hoje é compreendida venha a sê-lo no futuro ou que, nesse futuro, se torne referência com o estatuto de "clássica".

Uma das mais famosas teses de Hegel no campo da teoria estética é a da morte da arte. Será a arte contemporânea um sintoma disso mesmo? Por exemplo, a música que lembra o "ritual inicial das afinações dos diferentes instrumentos".

4 comentários:

jose albergaria disse...

Caro JCR,
Um domingo, com um texto como este seu...vale bem duas missas, não sei quantos jogos de futebol (para quem goste...),muitas revistas semanais e até um pedaço de convivio com a familia.
A beleza de um texto, a profundidade de um pensamento, a alegria pelo prazer que um texto nos provoca - pode-se bem ilustrar com este seu texto.
Obrigado.
Abraço,
J.A.

addiragram disse...

Lembro-lhe o que sabe certamente muito melhor do que eu - as "rupturas" na literatura, pintura, na escultura, na música têm ocorrido ao longo de toda a nossa História.Elas têm o fundamental papel de questionar e de investigar abrindo novos caminhos. O riso dos visitantes de Serralves ou de outro qq museu poderá enunciar algum grau de inquietação que poderá sempre deixar "sinais" e "sementes" em cada um. A música atonal que remonta ao sec.XIX resultou de uma investigação decorrente dos clássicos e que veio repercutir-se no jazz. Também é preciso ensinar a ouvir, a ler, a ver e mesmo as obras mais "fáceis" se olhadas, superficialmente, não são de facto vistas.
À semelhança da literatura estas artes também se destinam a elites.Isto não quer dizer que não possam vir a alargar-se...Veja-se o exemplo do jazz.
Acho, contudo, que se deve motivar a juventude começando pelos "clássicos",mas nunca ficando por aí.

José Ricardo Costa disse...

Cara addiragram,

Eu acho que pode estar a cair numa certa falácia indutiva. Ou seja, o facto de no passado terem ocorrido situações de ruptura que depois acabaram por ser absorvidas, não significa que todas as situações de ruptura impliquem situações de absorção. Há, hoje, no fenómeno artístico, situações de ruptura que presumo praticamente irreversíveis. Eu não acredito que dentro de 50 anos possamos ir a Serralves ver coisas que hoje nos fazem rir como vamos hoje a Paris ver coisas que fizeram rir há 100 anos ou que levaram o outro, no Porto, nos anos 20, depois de uma exposição do Amadeo, a dizer: "Estarei bêbado?"

JR

addiragram disse...

Se isso pode acontecer em determinados casos( e eu sei que os há), em muitos outros a ruptura constitui-se como um "salto epistemológico". Admito totalmente que o caro JCR possa não ser tocado por determinada música, admito também que alguma dela para mim tb me seja difícil,mas isto não quer dizer que essa mesma música não tenha tido um papel importantíssimo na História da Música, o mesmo relativamente a outras formas artísticas. O facto de eu não gostar intuitivamente de uma obra não depende só da qualidade intrínseca da obra mas do banho cultural em que fui mergulhada.Quanto às obras com o pequeno, essas situam-se em muitas e muitas formas artísticas.