22 fevereiro, 2009

WE HAVE ALWAYS PARIS


O Acácio no A Estética dos Tempos, postou uma fotografia de Paris. O Acácio, tal como eu, não precisaria de sair da Europa. É na Europa que estão as cidades mais bonitas, os cafés históricos, as mais belas praças, pracinhas e avenidas. É na Europa que estão também as paisagens que mais me interessam. Nunca senti o apelo de África ou da Ásia.

É por isso que eu gostaria de falar um bocadinho sobre Paris. E estou à vontade porque nunca fui um francófono. Li o teatro do Sartre quando era adolescente, ouvi muito Léo Ferré mas pouco mais do que isso. Nunca fui, como a Ivone, um "breliano", nem um "piafiano". Onde ainda fui mais francófono terá sido no cinema. Mas nunca fui culturalmente afrancesado nem nunca tive a França como paixão. Os momentos mais vibrantes da minha existência tiveram música anglo-saxónica como música de fundo.

Mas não deixo de registar a desgraça que consisitiu na passagem do "centro do mundo" de Paris para Nova Iorque. Nos anos 60 ou 70, se alguém se quisesse sentir no centro do mundo, iria a Paris. Hoje sente-o em Nova Iorque. Hoje, diz-se, com glamour, que se foi a Nova Iorque com o mesmo glamour com que dantes se dizia que se tinha ido a Paris. Curiosamente, muita gente que vai hoje a Paris, fá-lo graças a uma ideia americana: a Eurodisney.

Ora, esta transferência do centro simbólico do mundo, está longe de ser meramente estética. É sobretudo, uma mudança de paradigma civilizacional. Quem vai hoje a Nova Iorque não vai à procura das mesmas coisas daqueles que, noutros tempos, iam a Paris. Em Paris ia-se à procura de vivências, bairros, símbolos, experiências estéticas e culturais que não existem em Nova Iorque.

Eu nunca fui a Nova Iorque. E até confesso que seria uma cidade que gostaria de visitar, sobretudo pela "memória cinematográfica". Mas quer-me parecer que há muita gente que vai a Nova Iorque para ir a Nova Iorque. Ou seja, mais do que uma cidade, Nova Iorque transformou-se num conceito desde que se passou de um paradigma francês para um paradigma anglo-saxónico.

Poder-se-á estar em Nova Iorque durante um mês e vir de lá sem ter conseguido ver tudo o que haveria de interessante para ver. Mas há muita gente que vai só porque é o "sítio", "the right place", o "sítio onde se deve estar", o sítio onde um tipo moderno deve estar tal como é Roma que um católico deve estar e em Veneza dois pombinhos românticos devem estar.

Independentemente da cidade que nunca dorme poder ser fascinante, há um empobrecimento na passagem de Paris para Nova Iorque. Como acho, aliás, que há um empobrecimento na passagem da Europa para a América. Nova Iorque pode ser a cidade que nunca dorme. Mas Paris é uma cidade onde a História nunca dorme.

5 comentários:

josealbergaria1946@sapo.pt disse...

Caro J.R.C.,
Quem escreve, como você o fez neste texto, sobre Paris, não em si, mas a pretexto da transferência de paradigma cultural desta cidade para a de Nova Yorque, não se reclamando do estatuto de "francófono" é obra!
Imaginemos, um segundo que seja, que você era, como eu o sou, e cada vez mais, "francófilo" (mas do ponto de vista cultural...), que texto teria você escrito?
Todos, ou quase TODAS as minhas referências são francófonas.
Vivi em Paris em 1968. Vivi em Bruxelles seis anos. Conheci muita gente.
Sou ainda fanático de Bárbara,Monique Morelli, Jean Ferrat, Brassens, Juliette Greco, Yves Montad, Julos Beucarne,Léo Ferré,Mouludji (que canta Prevert como ninguém o fez ou alguma vez o fará...).
Sou uma espécie de "aprendiz" de história. Os meus mestres tenho-os disseminados pela Grécia, pela Roma,pela Alemanha, pela Inglaterra, por POrtugal, por Espanha. Não dispenso o Jaeger nem o E. Gibbon, mas os meus maiores, continuam a ser: Michelet, Tocqueville,Quatremére de Quincy, Bloch, Lucien Febvre, Braudel,Chaunu,Vidal Naquet, de Libera, Foucault, também.
Não dispenso Camus, Ricoeur, Georges Steiner, Cioran, Ionesco,Mircea Eliade (os três romenos...).
Não posso estar mais de acordo consigo: Paris não é só a história gravada nas pedras, nas ruas, nas praças. Paris é o emblema da Europa,é o "apport" dos Carolingios que, de meias, com os principes da Moscóvia -inventaram esta Europa, que nós, hoje, somos.
Eu, como diria o outro grego antigo:"Não sou ateniense. Sou cidadão do mundo".É evidente que aquele "mundo" era o que ele conhecia na época.
Hoje, digo-o sem soluços, ou atalhos, não sou nem francófono, nem lusófono: sou EUROPEU.

José Albergaria

José Borges disse...

A velha França pagou bem caro o erro de ter sido 'collabo'!

Como eu gostava de ter vivido nos bons velhos tempos áureos de Saint Germain-des-Prés e do Quartier Latin...

gustaria disse...

francófilo?!
Isso não será crime?

José Ricardo Costa disse...

Daí eu não entender aqueles que dizem, criticando, que a Europa está envelhecida. Não a respeito dos europeus, os quais, de facto, estão envelhecidos, mas a propósito da ideia de Europa. A Europa é velha? Claro que é. Mas não será essa a sua grande virtude, ao mesmo tempo que se vai renovando?

JR

José Trincão Marques disse...

Este post fez-me lembrar as teorias de Georges-Louis Leclerc, conde de Buffon, de Guilherme Thomas François Raynal (também conhecido por Abade de Raynal) e de Corneille De Pauw (todos eles naturalistas franceses do século XVIII), que vieram a influenciar os estudos do britânico Charles Darwin.

Para Buffon, no que concerne aos aspectos geológicos, o Novo Continente seria muito mais jovem do que o Velho Continente, pois apresentaria sinais de que emergira das águas posteriormente.
A América possuía uma grade quantidade de rios, lagos, pântanos, um cima quente e húmido e uma vegetação que impedia a penetração dos raios solares. Este ambiente sustentava uma natureza viva infereior, sendo propício ao nascimento de uma grande quantidade de seres inferiores, como insectos e répteis (e não conheceu ele G. W. Bush).
Também devido ao clima o homem americano era mais fraco e incapaz de dominar a natureza.
Devido aos factores ambientais e climáticos, os seres vivos, os animais e os seres humanos americanos apresentariam aspectos distintos dos seres vivos de outras regiões do mundo, em particular da Europa. Por isso, Buffon avaliava os seres vivos do Novo Mundo como seres diferentes, inferiores, mais fracos e menos numerosos.
Esta tese de Buffon sobre a inferioridade americana foi seguida e desenvolvida pelo Abade Raynal e por De Pauw.
Em suma, a natureza americana era hostil e imprópria aos seres vivos, sendo propícia à proliferação de formas inferiores de vida.
Para Corneille De Pauw, a América era considerado um lugar que levava à degeneração de animais e homens.

Trezentos anos depois, o Conde de Buffon, o Abade de Raynal e Corneille De Pauw, se pudessem ler este post, sorririam seguramente.