01 fevereiro, 2009

UNS MODERNAÇOS, PÁ

Chego do supermercado. Fui comprar duas ou três coisas imprescindíveis. Um casal, bem passado dos sessenta, ocupava, na sua totalidade, o único acesso ao local para onde me dirigia.
Esperei um pouco, pensando que me veriam e me dariam passagem. Nada. Os meus pais educaram-me e eu sou educada, excepto quando quero incomodar, aborrecer ou ferir alguém.
Como não era o caso, disse, então: "Davam-me licença, por favor?". Olharam-me e o senhor respondeu: "Está bem, pá. Desculpe."
Foi porreiro, lá fui tratar da minha vida.

O Professor Higgins, em My Fair Lady, gabava-se de saber distinguir a origem geográfica de um falante, ouvindo-o articular, apenas, um ou dois fonemas.

Com estas idas à compras, qualquer dia fico que nem ele, diferindo na capacidade: ouvindo estas respostas, observando estas atitudes, vendo um pormenor aqui, outro ali, saberei dizer, sem falha, de onde vêm e o que fazem. Para onde vão é coisa que não me interessa absolutamente nada. Mas espero que fiquem por lá.

2 comentários:

Alice N. disse...

"Pá" é das palavras mais odiosas da Língua Portuguesa. Que é isso do "pá"? Outra que não suporto é ? (Já viram a cara que fazem as pessoas quando dizem ?)

Já não é a primeira vez que repreendo alunos por se dirigirem a mim com um "hã?" quando os interpelo (na verdade, fico mesmo zangada e trato que pensem duas vezes antes de voltarem a usar essa interjeição). Uma das primeiras regras da aula é aprenderem a dizer "Como?", ou algo semelhante, mas muitos são os alunos que não conseguem perceber a minha reacção nem disfarçar a sua perplexidade (falo de alunos do 3.º ciclo). Tento explicar, é claro, e é curioso ver as bocas abertas de espanto quando falo em educação, delicadeza, respeito pelos mais velhos... Nos seus rostos, leio a frase: "Mas o que é que um tem que ver com isso tudo?" Deve soar a algo pré-histórico, ainda mais quando muitos pais, na ânsia de serem modernos, são os primeiros a usar essa linguagem com os filhos (e, pelos vistos, também já vai atingindo alguns avós).
Claro que dou o exemplo e nunca digo "pá" ou "hã" ao meu filho nem aos meus alunos (nem aos adultos, porque não gosto), mas isso é porque sou uma mãe e uma professora ultrapassada... E a Ivone, queira desculpar-me, também não me parece muito moderna... ;)

Anónimo disse...

A liberdade e a igualdade mal entendidas creio que não são fruto da nossa "tenra" democracia...
Acontece é que com ela (democracia, claro) se torna mais notória a falta de educação.
Questão de berço - que não tem de entender-se como questão de reprovável elitistismo. (Que o há louvável, evidentemente.)

jl