04 fevereiro, 2009

UM MITO RESISTENTE

É muito engraçado assistir à mudança de um paradigma.

Há alguns anos atrás, Jean Jacques Rousseau era uma espécie de herói para todos aqueles esquerdistas ou ex-esquerdistas que sonhavam com uma escola nova, do mesmo modo que sonhavam com o "homem novo" ou um "mundo novo".

Entretanto, e sobretudo depois da queda do Muro de Berlim, tornou-se consensual admitir que o "homem novo" e o "mundo novo" não passaram de um pesadelo que toda a gente rejeitou, a começar pelas próprias vítimas.

Porém, tantos anos depois, já com os nossos olhos bem abertos e esfregados, continua a existir um foco de resistência, um pesadelo que ainda ninguém teve a coragem de matar: a escola nova. A escola de Rousseau, a escola romântica, a escola centrada no aluno, a escola ATL, a escola do prazer e da alegria, a escola da falta de autoridade e hierarquia, a escola que, mais do que para aprender, serve para aprender a aprender, sendo o professor um simples auxiliar de acção educativa que faz powerpoints, passa filmes e corrige trabalhinhos inúteis saídos de cabeças ocas que não sabem ler nem escrever e cujos valores e atitudes andarão próximos da suinicultura.

Felizmente que, graças a homens como Isaiah Berlin, o mito de Rousseau foi caindo por terra. Ainda há pouco andei a reler umas passagens dos Devaneios do Caminhante Solitário e os sinais do que parecia ser um herói romântico e solitário, acabam por ser a revelação de um psicopata e de um homem irascível.

Durante quanto tempo mais irá conseguir resistir a escola de Rousseau?

4 comentários:

Marteodora disse...

E, então, pensemos juntos no seguinte: por que razão não sabem os meninos ler (não me refiro ao exercício de juntar letras)? Por que razão não sabem os alunos pensar, não conseguem fazer associações ou meros exercício de lógica?
Por que razão, ou razões, não sabem, ou não conseguem interpretar o mundo?
Há qualquer coisa de muito redondo, circular, sei lá...preverso nisto tudo.
Parecem vazios, por dentro, estes adolescentes que são os alunos de hoje.
De que parcelas sai este resultado? Irá melhorar?
Duvido!
Só quando forem tomadas medias de fundo e se encarar a profissão de professor como a mais importante no desenvolvimento de uma nação.
Para isso não basta ter 19 para entrar em Medicina!

José Ricardo Costa disse...

Querida Margarida:

1. Excesso de tecnologia.
2. Descontinuidade na transmissão de referências entre gerações.
3. Desvalorização da cultura e do saber como factores de promoção pessoal e social.
4. Desvalorização da escola enquanto espaço de promoção pessoal e social.
5. Desvalorização do papel do professor.
6. Pudor no exercício da autoridade.
7. Permanente sentimento de culpa do professor relativamente ao insucesso do aluno.
8. Ausência de uma cultura de avaliação do aluno, transferida para o professor e para a sociedade.
9. Cientistas da educação com ideias bizarras sobre a essência da escola e a identidade social do aluno.
10. O ideal dromológico estendido a todas as situações.

A coisa ainda vai piorar. Conselho aos pais que têm os filhos no ensino público: se puderem, salvem os vossos filhos.

JR

Marteodora disse...

11. péssima preparação na formação de professores do 1.º Ciclo do ensino básico!

José Ricardo Costa disse...

Estão, hoje, no sistema de ensino, a ensinar crianças, professores do 1ºciclo que eu, enquanto professor deles, chumbei com 7 e 8. Alunos que são professores do 1ºciclo como poderiam ter sido cabeleireiros ou torneiros-mecânicos. Muitos, foram para ali apenas porque queriam tirar um curso superior, alguns porque não conseguiriam tirar outro a não ser aquele.

O 1ºciclo, em Portugal, contrariamente ao que se passa noutros países, em que o nível de exigência relativamente aos professores é elevado,´constitui uma verdadeira tragédia.

P.S. Os outros níveis de ensino também já revelam padecimentos análogos.

JR