08 fevereiro, 2009

UM ALUNO BILDERBERG

Tenho estado a corrigir testes. Ou melhor, a fingir que os corrijo, pois já lá vai o tempo em que podia, de facto, corrigi-los.
O que me traz agora aqui é isto relacionado com parte de uma resposta que acabo de ler num teste. O aluno escreve o seguinte: "Por exemplo os anuncios de televisan dam-nos uma ideia que devês em quando pode esta meramente errado".
O aluno é intelectualmente normal. Se ele quisesse trabalhar um pouco até poderia ir longe pois tem uma inteligência que, nalguns aspectos, foge à mediania. Mas ele chegou ao 10ºano a escrever assim porque os professores não têm mecanismos de intervenção. Tudo no sistema de avaliação está preparado para favorecer a irresponsabilidade, o laxismo, o facilitismo. Se o professor exige e penaliza, o próprio professor será penalizado (explícita ou implicitamente) por isso.
Este aluno não só chegou ao 1oºano a escrever assim como irá chegar ao 12ºano a escrever assim e à universidade a escrever assim. Agora, a quem interessa que este aluno chegue à universidade a escrever assim? E não estou necessariamente a pensar nos cientistas da educação que, com a sua ingenuidade rousseuiana nuns casos, ou com a sua estupidez noutros, legitimam teoricamente o monstro.

3 comentários:

Xantipa disse...

Como eu o compreendo, José Ricardo. Como eu o compreendo.

Rosa Oliveira disse...

«Mas ele chegou ao 10ºano a escrever assim porque os professores não têm mecanismos de intervenção.»

José Ricardo, queira desculpar, mas não compreendo, inteiramente, esta afirmação.
O José Ricardo não vai, efectivamente, corrigir o teste do aluno?

José Ricardo Costa disse...

Cara Rosa,
Claro que corrijo o teste do aluno mas isso não significa que haja correcção. Imagine uma mãe que diariamente dá ao filho, para levar para a escola, um iogurte líquido e uma maçã. Só que ele chega à escola, deita-os fora e come chocolate e bebe coca-cola. Por muito boa que seja a orientação da mãe, tal não significa que o filho se oriente.

O que se passa com estes alunos é a mesma coisa. Os professores orientam, ensinam, cumprem a sua obrigação. Mas o sistema está todo feito para desvalorizar certas aprendizagens essenciais e valorizar insignificâncias e aprendizagens secundárias. Eu tenho estado em conselhos de turma nos quais alunos que não sabem ler nem escrever têm 12 ou 13 a português. Porquê? Porque fazem uma coisinhas e tal, uns trabalhinhos, uns resuminhos, uns powerpoints com informação tirada da net, mais os valores e as atitudes e merdices desse tipo e... zás: está transformado num aluno quase brilhante.
Quando eu digo "corrigia" é porque, anos atrás, o aluno teria mesmo de corrigir certas coisas pois se não o fizesse ficaria penalizado. Hoje, ele não precisa de corrigir pois a nota aparece-lhe entregue num paninho bordado numa bandeja de prata. Eu já tenho tido alunos no 10ºano que gozam com o processo que os levou a passar do 9º para o 10º ano. Claro que tudo isto serve para alimentar a mediocridade e não para ajudar os alunos a evoluir.

JR