05 fevereiro, 2009

JEAN JACQUES NA ESCOLA PÚBLICA


Hoje de manhã, lembrando-me que iria dar um teste, decidi levar na pasta "Os Devaneios do Caminhante Solitário" do nosso amigo Jean Jacques Rousseau.

Ora bem, nós começamos a ler aquilo e não podemos deixar logo de sentir alguma empatia com o homem. Veja-se a abertura: " Eis-me sozinho na terra, sem irmão, parente próximo, amigo, ou companhia a não ser eu próprio".

Pronto, ficamos logo com vontade de chorar. Rousseau é um homem frágil, um homem só, um homem perdido no mundo. Imagino mesmo algumas leitoras, prenhes de instinto maternal, com o desejo de assumir o seu colo protector perante tão desgraçada e infeliz personagem.

E o rol continua, embora já com um espelho à frente para ver reflectido o seu próprio rosto:

"Essas horas de solidão e meditação são as únicas do dia em que sou plenamente eu mesmo, e em que posso dizer que sou verdadeiramente aquilo que a natureza desejou".

Aqui, podemos sentir algum alívio. O homem está só, certo, mas "é". Tem uma identidade graças à qual é verdadeiramente o que natureza quis que ele fosse. Ficamos então a perceber que a natureza se preocupa com ele. Provavelmente, digo eu, até mais do que com qualquer outra pessoa.

Até porque os outros deverão contar mesmo muito pouco. Só assim fará sentido dizer "Lançado desde a minha infância no turbilhão da sociedade, cedo aprendi, pela experiência, que não era feito para nela viver". Obviamente que o resto da humanidade está errada e apenas Jean Jacques, com o aval e apoio moral da natureza, conhecerá o verdadeiro caminho.

Mas onde eu quero mesmo chegar é aqui: " Se me tivesse conservado livre, obscuro, isolado, como era do meu temperamento, não teria praticado senão o bem, porque no meu coração não existe o germe de nenhuma paixão nociva"

E aqui: " A conclusão que posso extrair de todas estas reflexões é que não fui feito para a sociedade civil, onde tudo é opressão, obrigação, dever; o meu temperamento independente tornou-me sempre incapaz das sujeições necessárias a quem quiser viver entre os homens. Enquanto posso agir livremente, sou bom e não pratico senão o bem; mas, logo que sinto o jugo, quer da fatalidade quer dos homens, torno-me rebelde, ou antes, insubmisso, e passo a ser nulo. Quando é preciso fazer o contrário da minha vontade, não o faço, aconteça o que acontecer".

E, agora, a vermelhíssima cereja em cima do bolo. Até vou escrever com maiúsculas para ver se consegue ouvir: "NUNCA ACREDITEI QUE A LIBERDADE DO HOMEM CONSISTE EM FAZER O QUE QUER, MAS SIM EM NUNCA FAZER O QUE NÃO QUER".

Vou só pedir-lhe para pensar um bocadinho e, depois, tentar relacionar isto com a escola actual. Percebe, agora, por que razão alguns belos representantes da esquerda-champagne ou do PSD intelectual, dentro de belos fatos, a beber bons vinhos e a comer em bons restaurantes, mas que em tempos fumaram uns valentes charros e atiraram pedras à polícia, continuam a ter em Jean Jacques uma incontornável referência que não conseguem abandonar?
Já que não se é rebelde e romântico nos actos (a idade não perdoa), continuamos a sê-lo nas ideias, nos princípios. Nós já não andamos na escola mas ofereçamos aos jovens actuais a escola que gostaríamos de ter, a escola ideal, a escola da liberdade, a escola em que cada aluno pode ser "ele próprio", descobrir a sua verdadeira "natureza".

Mais do que receber ideias, a grande tarefa de um aluno deverá ser construir as suas próprias ideias, o seu projecto. Claro que o nosso aluno, tal como Jean Jacques, há-de odiar a disciplina, a autoridade, o esforço, o tédio, a submissão ao professor, esse símbolo da horrível sociedade civil. Então, se odeia, é precisamente isso que nós, nós professores, pedagogos e psicólogos, pedopsiquiatras, que reconhecemos o ser inocente, puro e cheio de potencial de aprendizagem que existe em cada aluno, não lhe devemos dar para não o castrar, evitando que cada jovem inocente volte a ser um infeliz e incompreendido Jean Jacques.

A explicação para a destruição da escola pública não acaba aqui. Mas é aqui que começa.

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