21 fevereiro, 2009

HEGEL E A PINTURA

Giorgione, A tempestade


Hegel, nas suas Lições Sobre Estética:

" (...) a ambivalência exterior do homem, montanhas, vales, prados, torrentes, árvores, são frequentemente escolhidos pelos pintores mais célebres, como objectos dos seus quadros, mas o que, nas suas obras de arte, constitui o núcleo da representação, não são esses objectos em si, mas a vitalidade e a alma que presidiram à sua concepção e execução subjectivas, é a alma do pintor que se reflecte nas suas obras e nos comunica, não uma reprodução pura e simples dos objectos, mas a sua própria alma e o seu lado mais íntimo. (...) Por esta tendência para a alma que, nos objectos exteriores, se manifesta somente por uma difusa tonalidade que cria em torno deles uma atmosfera especial, a pintura distingue-se essencialmente da arquitectura e da escultura e aproxima-se mais da música, formando assim uma fase intermediária entre as artes plásticas e as artes sonoras".

O que Hegel nos diz não é nada intuitivo. Intuitivamente, a pintura está muito mais próxima da arquitectura e da escultura do que da música. A pintura, tal como as primeiras, é uma arte para o olho, uma projecção no espaço. A música, pelo contrário, não é espacial e é feita para o ouvido.

Mas Hegel tem razão. Porque, contrariamente ao que acontece com a arquitectura e a escultura, há, na pintura, um processo de desmaterialização. Perde-se a matéria propriamente dita (a pedra, o bronze, o mármore, o marfim), perde-se a tridimensionalidade, perde-se a funcionalidade. Enquanto uma obra arquitectónica ou escultórica são objectos, a pintura deixa de ser um objecto para se tornar uma representação essencialmente formal dos objectos através das cores, das linhas, da luz, da perspectiva. Ora, o que se perde em objectividade, ganha-se em subjectividade.

É por isso que a pintura, enquanto cosa mentale (Leonardo), se aproxima mais da música E, do mesmo modo que os sons da música representam quase o apogeu da subjectividade, também os elementos abstractos e formais da pintura para lá caminham. O que nós vemos na pintura não são objectos físicos, carnais. Vemos cores, luz e uma espacialidade abstracta. Nós olhamos para a pintura e pensamos ver a realidade. Mas o que vemos na pintura é, fundamentalmente, a conquista da subjectividade. De outro modo: a vitória da subjectivade sobre a objectividade. De outro modo ainda: a vitória do espírito sobre a matéria, transformando esta em espírito.

2 comentários:

Alice N. disse...

Mais uma reflexão magistral sobre essa maravilhosa Arte que é a pintura (para mim, a mais fascinante de todas as artes).
Penso que essa cosa mentale é ainda mais sentida quando a pintura se afasta da "reprodução fiel" do real ou perde mesmo qualquer referência do mundo concreto, das "coisas materiais". Estou a pensar em géneros como: fauvismo, expressionismo, cubismo, surrealismo ou abstraccionismo, só para nomear alguns. Mas, seja qual for o género, não há dúvida que a pintura convoca muito mais do que a visão e que é uma arte subjectiva por excelência, quer nos seus recursos, quer no diálogo único que estabelece com todos os que não apenas a vêem, mas também e fundamentalmente a pensam e a sentem.

Acácio Luz disse...

Caríssimo, Santas noites!

José Ricardo dixit:
“Porque, contrariamente ao que acontece com a arquitectura e a escultura, há, na pintura, um processo de desmaterialização... Enquanto uma obra arquitectónica ou escultórica são objectos...”

Com estas premissas... ocorreu-me que ao olhar para os quadros de Escher poderia concluir que aquelas escadas não seriam materializáveis... e como de pintura (cosa mentale) se trata... não se falaria mais nisso. Estava pintada (sonhada) e pronto! Será assim meu caro José?

Pois é... ou, melhor dito, pois não é! Primeiro ocorreu-me fazer o paralelo com a arquitectura descontrucionista que por aí anda hoje em dia. Mas, como o Hegel disse o que disse algures por 1800s, não seria correcto do ponto de vista metodológico usar os descontrucionistas de hoje como argumento.
Assim sendo resolvi andar para trás... para o renascimento italiano.
Fui até às escadas da biblioteca laurentina em Florença, de Michelangelo, 1525... e às páginas do I Quattro Libri dell'Architettura de Andrea Palladio, 1570, com escadas.
E o que vi é muito mais do que a função de vencer desníveis... são um cenário, um trompe l’oeil, são o sonho de organizar o espaço com formas, de ocupar o espaço com o corpo, de forma lúdica, estética... e contudo também servem para chegar lá acima, cá abaixo.
Aquele pessoal de Florença/Veneza sabia muito... e passou esse saber à pedra.

E agora?... se já em 1525 o Michelangelo Buonarroti e em 1570 o Andrea Palladio não só o sonharam como o desenharam e construíram...
http://www.britannica.com/EBchecked/topic/379957/Michelangelo

http://visualiseur.bnf.fr/CadresFenetre?O=NUMM-85654&I=68&M=tdm
http://visualiseur.bnf.fr/CadresFenetre?O=NUMM-85654&I=69&M=tdm