02 fevereiro, 2009

FRANZ HALS E OS NOSSOS DEFEITOS

Há pessoas que convivem muito mal com os seus próprios defeitos e com os defeitos dos outros. Um defeito, à partida, não é uma coisa boa. Mas devemos ter algum cuidado no modo como o classificamos.

Há defeitos objectivos. Ficar surdo é um defeito objectivo. Ser pedófilo é um defeito objectivo. Ser mentiroso é um defeito objectivo. Porém, somos muitas vezes implacáveis com certas pessoas por causa de defeitos que, não o sendo, vemos como objectivos.

Se uma máquina de lavar roupa vier com defeito deve ser liminarmente rejeitada. Porque a máquina com defeito faz com que já não seja aquilo que seria suposto ser. Do mesmo modo, um carro que não ande, deixa de ser aquilo que é, e o mesmo se passa com uma lâmpada fundida. Isso, sim, são defeitos.

Ora, a lógica dos defeitos nos seres humanos é diferente. A lâmpada ou ilumina, e é perfeita, ou não ilumina (um defeito) e é imperfeita. Mas connosco não é assim. Não há uma dicotomia entre perfeição e imperfeição. Eu não me posso considerar imperfeito por ser mau aluno a matemática ou por sofrer de claustrofobia. A pessoa perfeita não é aquela que consegue fazer perfeitamente tudo o que cada uma das outras, na sua área específica, faz perfeitamente. Não deve ser fácil, ao mesmo tempo, marcar os golos do Cristiano Ronaldo e ter a inteligência do Carlos Fiolhais.

Aquilo que nós consideramos ser os nossos defeitos pode ser mesmo condição da nossa identidade e uma identidade que não é necessariamente defeituosa. Eu sou muito distraído e não tenho qualquer jeito para trabalhos feitos com as mãos. Mas isso não é um defeito. Isso sou eu e não é a mesma coisa que ser surdo, pédófilo ou mentiroso.

Eu poderei explicar isto ainda melhor através da apreciação que Abel Salazar faz do pintor Franz Hals no seu livro "Notas de Filosofia da Arte" (Campo das Letras). Chama-lhe desenhador imperfeito e descuidado. Mas diz depois, e é aqui que pretendo chegar, se não um fosse desenhador imperfeito e descuidado já não seria Franz Halz: " Um Franz Hals minimamente acabado não seria um Franz Hals mas uma queda, uma desfalência, uma imagem pálida da sua própria individualidade artística".

A sua essência, enquanto pintor, reside precisamente na sua imperfeição, no seu temperamento impetuoso, na sua falta de paciência para o pormenor e para o preciosismo técnico. Há pintores com essa paciência e preciosismo, mas Franz Hals não é um deles. Se fosse, não conheceríamos Franz Hals enquanto Franz Hals pois já não seria Franz Hals.

Espero que isto ajude algumas pessoas a dormirem melhor.

3 comentários:

Alice N. disse...

Uma reflexão... perfeita!

(Sobre o tema, diria que há defeitos que se revelam verdadeiras qualidades...)

Julieta Blanco disse...

Então, ahora posso dormir mais tranquila.É verdad (desculpe, no falo muito portugueis, mais intento)eu conhosso pessoas con defeitos muito bonitos que hacen a esas pessoas sujetos particulares e unicos.Que bom! :)

Julieta Blanco disse...

E muita verdade, as pessoas sao unicas por eso, por seus defeitos (virtudes tmb) mais os defeitos enriquecen, y nos fazen mais interesantes.La perfeccion e aburrida.(Desculpem la mixtura, todavia no falo muito portugueis)