06 fevereiro, 2009

A ESCOLA REACCIONÁRIA DO SR. ALBINO E DA SOCIÓLOGA LURDES


"A cultura dá-se na forma integral do Homem, na sua conduta e comportamento exterior e na sua atitude interior. Nem uma nem o outro nasceram do acaso, mas são antes produto duma disciplina consciente. Já Platão a comparou ao adestramento de cães de raça. A princípio, esta educação limitava-se a uma reduzida classe social, a nobreza. o Kalos kagathos grego dos tempos clássicos revela esta origem tão claramente como o gentleman inglês. Ambas as palavras procedem do tipo da aristocracia cavaleiresca.

Desde o momento, porém, em que a sociedade burguesa dominante adoptou aquelas formas, a ideia que as inspira converteu-se num bem universal e numa norma para toda a gente.

É facto fundamental da história da cultura que toda a cultura elevada surge da diferenciação das classes sociais, a qual por sua vez se origina na diferença de valor espiritual e corporal dos indivíduos. (...) A nobreza é a fonte do processo espiritual pelo qual nasce e se desenvolve a cultura duma nação. A história da formação grega - o aparecimento da personalidade helénica, tão importante para o mundo inteiro - começa no mundo aristocrático da grécia primitiva com o nascimento dum ideal definido de homem superior, ao qual aspira o escol da raça. (...) Toda a cultura posterior, por muito alto que se erga e ainda que mude de conteúdo, conserva bem clara a marca da sua origem. A educação não é outra coisa senão a forma aristocrática, progressivamente espiritualizada duma nação." Werner Jaeger, Paideia - A Formação do Homem Grego, Aster, 1979, p. 22

À primeira vista parece estarmos perante um texto despudoradamente reaccionário e de um conservadorismo atroz. Mas não estamos. Trata-se, antes de mais, de um juízo de facto e não de valor. Trata-se de uma análise histórica e não de um programa. Jaeger diz o que diz porque foi assim.

Agora, momento fundamental deste excerto, é o segundo parágrafo. Porquê? Porque permite perceber que as elites, entretanto, não passaram a estar fechadas numa blindada redoma de vidro na qual ninguém pudesse entrar.

A escola moderna (anterior à nossa) deu, a todos, a possibilidade de aprender a ler, escrever e contar. Deu, a todos, o pensamento de grandes filósofos cujas ideias mudaram o mundo. Deu, a todos, a História, a Geografia, os conhecimentos básicos das ciências, a matemática. Deu, a todos, regras de civilidade, de respeito, de educação.

A escola moderna, tendo como modelo um conjunto de regras e valores herdados da antiga cultura nobre e aristocrática, tornou possível a crianças e jovens humildes chegarem a cargos políticos, económicos e profissionais importantes.

Pelo contrário, o que faz a escola actual é prender as crianças e jovens humildes à sua humildade. O que a escola actual diz às crianças e jovens humildes é mais ou menos o seguinte: " Ok, vêm à escola, almoçam, lancham, entretanto, graças ao sr Albino, podem começar a ficar até à hora de jantar e, pelo meio, fingem que aprendem umas coisitas, desenvolvem umas competências entre o falar e o grunhir, entretêm-se com a tecnologia e alguns de vós até recebem dinheiro só por estarem sentados numa sala de aula. Fiquem descansados que os professores não vos irão maçar muito nem puxar muito por vós. Aliás, muitos deles, mesmo que quisessem não conseguiriam, pois as suas licenciaturas e a sua formação anterior não lhes permitiria tal veleidade".

Escola mais reaccionária que esta é difícil imaginar.

Sem comentários: