13 fevereiro, 2009

EMPATE TÉCNICO

Ontem à noite lembrei-me de ver um bocado de televisão. Como acontece quase sempre, e apesar das dezenas de canais à disposição, fiquei-me pela RTP Memória. Desta vez, assiti aos últimos 15 minutos de um Benfica-Sporting ainda do tempo em que os jogadores tinham bigode e calções curtinhos. No Benfica ainda jogava o Silvino, o Rui Águas, o Mozer, o Veloso, o Álvaro.

Foi uma experiência mental muito interessante. Como é óbvio, eu estava a puxar pelo Benfica. Entusiamava-me quando via os encarnados aproximarem-se da área do Sporting, ficava ansioso quando os lagartos iniciavam um ataque no meio-campo do Benfica.

Entretanto, caí em mim. Como seria possível estar nervoso por causa de um jogo que já não existe? Faz sentido estar nervoso quando estamos a ver um jogo que ainda não acabou, pois o jogo existe e não se sabe ainda como vai acabar. Até mesmo quando vemos à noite, em diferido, sem saber o resultado, um jogo que decorreu à tarde, é praticamente como se estivéssemos a ver em directo pois a presença diferida do jogo tem o mesmo efeito de uma presença directa.

Mas, Deus do céu, naquele jogo que eu estava a ver, já nem sequer os jogadores jogam. Aqueles jogadores já não são jogadores. Provavelmente até algum dos fiscais de linha que andavam ali a correr de bandeira na mão já terá morrido entretanto. Mais: aquele jogo fez parte de um campeonato que já teve um campeão. Independentemente de quem iria ganhar aquele jogo, aquele jogo era relativo a um campeonato já teve, há muitos anos, um irreversível vencedor.

Imaginemos que fazíamos uma viagem no tempo e iríamos parar à Idade Média. Entretanto, íamos dar com uma qualquer batalha entre cristãos e mouros que, por uma qualquer razão, nenhum historiador soube que teria existido. Naturalmente que iríamos puxar pelos cristãos. Mas também podemos pensar de que valeria a pena estar a puxar pelos cristãos se já sabemos, a posteriori, como se desenrolou a História. Independentemente de ganharem os mouros ou os cristãos, a História foi o que foi e isso ninguém pode mudar.

Mas estas reacções são normais. Porque uma coisa é a vivência física do tempo, outra será a vivência mental do tempo. O tempo cronológico é um tempo cronométrico e um tempo lógico. A Revolução Francesa vem sempre depois da Revolução Inglesa e o PREC virá sempre depois do 25 de Abril.

Na vivência mental do tempo, pelo contrário, há uma liberdade que não existe no tempo físico. O Benfica-Sporting já foi, já não existe, mas nós estamos a viver aquilo ainda como um "há-de ser". Só isso explica a emoção perante o resultado final. Estamos perante uma realidade determinada mas, ainda assim, acreditamos no livre-arbítrio. Eu não sei se Rui Águas terá marcado algum golo naquele jogo, um golo que se marcou, marcou, se não marcou, já não poderia voltar a marcar, mas eu estou a ver o jogo e acredito que Rui Águas pode ainda marcar um golo. Uma bela ilusão, claro, mas uma ilusão. A nossa vivência do tempo tem muito de ilusão.

Entretanto, o jogo acabou e o resultado teve um simbolismo tremendo. 1-1. Um empate. Que melhor resultado poderia haver para um jogo que não existe? Eu diria mesmo: um empate técnico. Nada de emoções.

1 comentário:

José Borges disse...

Foi como eu hoje a torcer aos mãos pelo Jesse Owens enquanto o via correr os 100 e 200 metros no Olympia da Leni Riefenstahl...