27 fevereiro, 2009

A DÚVIDA


Regresso ao filme A Dúvida.

Estamos num colégio, ligado à igreja, cuja reitora é uma horrível freira (Meryl Streep), autoritária, ressentida, mesquinha, mentalmente habitada por fantasmas, um caso psicanalítico. Há uma freira, professora de História que é o oposto da reitora: jovem, dócil, ingénua, frágil. Há um padre que toda a gente gostaria de ter na sua paróquia: faz profundos e inteligentes discursos nas homilias dominicais, é simpático e divertido, fuma, tem uma óptima relação com os alunos dos quais é professor de Educação Física.

A jovem freira apercebe-se de situações que a levam a pensar que o padre mantém uma relação pedófila com um aluno. Vai contar à reitora. A partir daqui o filme é vertiginoso. Vamos por partes.

1. Há, de facto, indícios objectivos, de que o padre pode ter embriagado um jovem aluno e abusado dele.

2. O padre alega inocência.

3. A reitora, figura detestável, ressentida e a última pessoa no mundo com quem gostaríamos de tomar chá acredita que o padre é culpado.

4. A jovem freira, depois de conversar com o padre, acredita que ele está inocente.

Nós, que estamos a ver o filme, não sabemos de nada. Temos apenas os mesmos indícios objectivos da jovem freira e da reitora. Ora, é aqui que a nossa posição começa a complicar-se. Passamos também a ser um joguete nas mãos das personagens, sendo a nossa subjectividade determinada pela subjectividade das próprias personagens. Fica mais ou menos uma coisa deste género:

1. Nós queremos acreditar no padre porque gostamos dele, apesar dos indícios objectivos que nos podem levar a acreditar que ele é culpado.

2. Aproximamo-nos, pois, da posição da jovem freira. Só que a jovem freira é profundamente ingénua e frágil, o que significa que a nossa crença é a crença de uma pessoa ingénua e frágil.

3. Admitimos então a possibilidade de acreditar que o padre é culpado. Só que ao acreditarmos na sua culpa, estamos a aproximarmo-nos da posição da detestável reitora a qual acredita na culpa do padre por razões não apenas ad hominem (não simpatiza com ele), mas também absolutamente mesquinhas como, por exemplo, embirrar com o facto de o padre deitar açúcar no chá, fumar ou gostar de rebuçados.

O que vai dar mais ou menos ao seguinte:

Perante os indícios objectivos, racionalmente, achamos que podemos acreditar na culpa do padre. Mas, emocionalmente, achamos tal hipótese detestável porque é a hipótese de uma figura detestável. Também racionalmente sabemos que o facto de o padre ser popular e simpático pode não querer dizer grande coisa. Há muitos criminosos que são pessoas populares e simpáticas. Mas o facto de ser popular e simpático acaba sempre por nos levar a desejar acreditar que ele esteja inocente, e desejar acreditar que ele esteja inocente leva-nos a acreditar na sua inocência. Mas o facto de sabermos que a nossa crença é frágil não nos impede de acreditar. Ou seja, sabemos que estamos a acreditar numa coisa na qual poderíamos perfeitamente não acreditar, ou que até mesmo seria sensato não acreditar. E mesmo tendo a consciência de que os argumentos do padre, em sua defesa, são perfeitamente credíveis, não é pelos argumentos que vamos acreditar nele. Eu diria mesmo que acreditamos no argumento do padre porque temos o desejo de acreditar nele.

Imaginemos que este filme seria um policial com um detective que iria conduzir a sua investigação apenas através de observações e conclusões dedutivamente elaboradas. Comparemos então a sua atitude com a nossa. Enquanto para o detective toda e qualquer emoção funcionaria como ruído, para nós, a confrontação com os factos e uma orientação puramente racional é qualquer coisa de distante. Somos absolutamente conduzidos por emoções e por motivos que nada têm que ver com a objectividade dos factos e a racionalidade dos argumentos.

Dizia Aristóteles que o homem é um ser racional. Dizia Descartes que existia porque pensava. Este filme, até sobre isso, nos traz a dúvida.

5 comentários:

addiragram disse...

Vou ter de ir a correr ver a "Dúvida" para depois entrar, de novo, aqui e discorrer sobre todas as dúvidas.

José Ricardo Costa disse...

Cara addiragram,

Cá fico à espera da sua versão dos acontecimentos... De certeza que vai gostar do filme.

JR

addiragram disse...

Olá! Vamos lá discorrer em torno da "Dúvida".
Em primeiro lugar, foi uma óptima sugestão!
Depois: A "nossa" Irmã de estimação (Merly Streep) é, de facto, um caso patológico, onde é possível observar, desde o princípio do filme, a sua necessidade de olhar o mundo que a rodeia pelo seu lado mais negativo.Nada é olhado com benevolência ou bondade. Há sempre, nos mais pequenos gestos, a presunção de culpa.Percebe-se a existência no seu interior de Ideal totalmente inatingível.Os olhos com que olha o que a rodeia levam-na a projectar sobre os personagens as partes dela própria mais odiadas. Aquelas que ela não pode reconhecer como lhe pertencendo.Pouco sabemos da história daquela mulher. Contudo o apontamento de que foi casada até à morte do marido na guerra, faz-nos pressupor uma necessidade de recorrer a uma repressão maciça da sua sexualidade. É essa sexualidade com uma conotação perversa que ela "vê"("identificação projectiva", M.Klein), quer nas crianças quer no padre. O seu sentimento de desconfiança é generalizado e constitui o seu ponto de partida em qualquer análise, em contraponto, com o da jovem professora.
A presença de determinados indícios é lida à luz dos pressupostos internos de cada personagem.
Relativamente ao problema da hipotética culpa do padre aqui parecem cruzar-se culpas de natureza diferente. Ao ser acusado essa acusação parece ir ao encontro de outras culpas que não está interessado em revelar. Todos somos sempre, de alguma forma culpados. A culpa é inerente à educação judaico-cristã. Assim sendo,a suposta "objectividade" dos factos, ela também pode ser mascarada. A análise deste caso nunca poderia recorrer apenas a uma análise dedutiva.Ela teria de ter sempre em conta a estrutura psíquica de cada personagem que determina a leitura dos acontecimentos.
De um lado, temos os que partem de uma presunção de inocência e do outro, a "nossa"irmã que parte de uma presunção de culpa. Os momentos finais(o choro convulsivo) do meu ponto de vista, confirmam a tomada de consciência momentânea da sua leitura tendenciosa.
Esta é o meu olhar. Haverá outros.

José Ricardo Costa disse...

Concordo com a análise, feita de um ponto de vista mais psicológico. Interessante teorizar a percepção do facto objectivo a partir da experiência da culpa. A inocência da irmã mais nova resulta de uma visão ingénua do mundo que vive bem sem a ideia de mácula. A sua desconfiança existe, porque há um facto objectivo que a leva a isso. Mas a partir do momento em que há uma confissão por parte do padre, há desde logo, uma "redenção dos factos". No caso da irmã mais velha é precisamente o contrário. Não há redenção pois o seu processo mental não vai do facto para o julgamento mas do julgamento para o facto. O que faz com que a culpa seja um elemento mais ontológico do que ético. A culpa é inerente à própria realidade e não um acidente resultante de um desvio moral da ordem do mundo.

Ainda bem que gostou do filme. Faz-me pensar que pratiquei uma boa acção...

JR

addiragram disse...

Foi seguramente uma boa acção porque me levou do prazer de ver ao prazer de reflectir e, por último, ao prazer da partilha.
O seu complemento filosófico foi, igualmente, muito interessante. Qualquer dia ainda vai ser responsável de uma reinscrição minha na Faculdade ...:))