03 fevereiro, 2009

DOUTA IGNORÂNCIA


Não se assuste que eu não venho aqui falar de filosofia hegeliana. Venho apenas falar destes olhos que olham para nós e que são os olhos que olhavam para o papel do qual ia saindo a filosofia hegeliana.

A roupa é antiga, o corte de cabelo e as patilhas, absolutamente impensáveis para um homem de hoje que adquirisse o estatuto imperial que aquele homem adquiriu, sobretudo, depois de chegar a Berlim. Mas os olhos são olhos, aquele olhar é apenas um olhar. São olhos que poderiam ser os olhos de alguém, hoje, a olhar para nós enquanto seria fotografado.

Já agora, os olhos que reflectem um saber e cultura vastíssima. Ok, esqueçam o que Karl Popper, que tinha mau feitio, disse dele. Na Sociedade Aberta e seus Inimigos, chama-lhe, com a ajuda de Schopenhauer (tenho o livro aberto à minha frente), palhaço, charlatão de vistas curtas, nauseante, entre outros mimos.

Uma coisa é certa. Hegel, no seu tempo, sabia "tudo" o que era suposto saber. Fica-se impressionado com os seus conhecimentos de música, pintura, literatura, escultura, arquitectura. De história. de história das religiões. De cultura clássica.

Só que o homem que sabia tudo de pintura nunca viu um quadro de Van Gogh. Nunca ouviu Stravinsky. Nunca ouviu falar de Marcel Proust, Joyce ou Virginia Woolf. Ou seja, Hegel era completamente ignorante relativamente a coisas que, hoje, fazem parte da cultura média de uma pessoa normal.

Eu sei que estou a ser injusto. A desprezar o facto de Hegel nunca ter ouvido falar de Van Gogh pelo simples facto de ter vivido antes dele. Mas não é aí que eu quero chegar. É ao seguinte: tudo o que se sabe, por muito que se saiba, não vale nada se pensarmos em tudo o que se pode saber. Quanto mais a História avançar mais ignorante vai ficando Hegel. Hegel está morto há muito tempo, mas, mesmo morto a sua ignorância vai aumentando cada vez mais. Em 2010 há-de ser ainda mais ignorante.
É por isso que Kant foi mais ignorante que Hegel, Leonardo da Vinci ou Pico de la Mirandola mais ignorantes que Kant, Tomás de Aquino mais ignorante que Leonardo da Vinci e Pico da la Mirandola, Aristóteles mais ignorante que Tomás de Aquino. E, atenção, todos eles homens cultíssimos.

O olhar de Hegel revela profundidade, solenidade, é o olhar de quem julgaria tudo saber. Hoje, aparecido de repente ao pé de nós, aquele olhar seria de espanto e perplexidade por causa de uma ignorância da qual jamais desconfiou.

Sem comentários: