20 fevereiro, 2009

CAUSAS E EFEITOS

Eu acho que há aqui uma confusão qualquer. Os Foliões esquecem a crise para se divertirem? Afirmar isso é tão estulto como dizer que temos temos fome porque comemos em vez de dizer que comemos porque temos fome. Ora, não seria mais correcto afirmar: "Foliões divertem-se para esquecerem a crise"?

2 comentários:

Alice N. disse...

A frase é estranha, realmente, mas talvez não seja tão absurda como parece. Penso que as expressões “foliões esquecem a crise para se divertirem” ou “foliões divertem-se para esquecerem a crise” indiciam duas atitudes muito diferentes. Arrisco a seguinte análise.

A lógica diz-nos que a diversão é o meio e que “esquecer a crise” é o fim, mas viver em Portugal há muito que ultrapassou qualquer noção de lógica. Na expressão “foliões esquecem a crise para se divertirem” fica implícito que é a tristeza e o pessimismo que dominam habitualmente as pessoas, já que a diversão não resulta de um ímpeto, de algo intrínseco que funcione como natural antídoto para as agruras da vida. Pelo contrário, a diversão surge como algo exterior ao ser humano, algo que é induzido, sendo, por isso, dramaticamente artificial e ilusória.

Por outro lado, ao designar a diversão como um fim (um fim efémero), a expressão em causa acaba por realçar o carácter momentâneo dessa diversão e sobretudo o seu carácter de excepção na vida de quem enfrenta diariamente dificuldades que não dão espaço para grandes folias. Parece-me que a expressão deixa assim subentender que a crise está demasiado presente na vida das pessoas, que o esquecimento da mesma é um “luxo” e a diversão um raro e breve parêntese que elas concedem a si próprias, com o objectivo de usufruirem de efémeros momentos de alegria e despreocupação.

Toda a lógica está invertida, de facto, mas a vida dos Portugueses também está destituída de lógica. Um cinzento baço domina as suas vidas e as cores do arco-íris apenas conseguem assumir vagos e fugazes contornos no tempo que dura um Carnaval. Este país não permite mais do que isso.

José Ricardo Costa disse...

Também está bem visto!
JR