01 fevereiro, 2009

BUÍÇA, O REGICIDA


Buíça. Chamava-se Buiça o homem que matou o rei D. Carlos naquela fatídica tarde de Fevereiro. Nome heróico para alguns, maldito, para outros. Para todos, ficou como Buíça, o regicida. Palavra feia que lembra pesticida, espermicida, fungicida. Compadre de Aquilino Ribeiro, frequentador do café Gelo, era um professor culto, um intelectual que acreditava na humanidade. Tornou-se regicida por imaginar a República como o início de uma sociedade justa.

Era ainda um homem bom, delicado, sedutor. Tinha uma irmã jovem muito doente. Buíça visitava-a de propósito para pegar nela ao colo e levá-la a passear pelo campo e apanhar ar puro.

Ainda hesitou bastante antes do regicídio. Viúvo, havia ficado com dois filhos pequenos que adorava: Elvira, uma menina de 9 anos e Manuel, um rapaz de 4 anos. Mas uma passagem do seu testamento, escrito 4 dias antes do regicídio, explica tudo. Vale a pena ler:

"Meus filhos ficam pobrissimos; não tenho nada que lhes legar senão o meu nome e o respeito e compaixão pelos que soffrem. Peço que os eduquem nos principios da liberdade, egualdade e fraternidade que eu commungo e por causa dos quaes ficarão, porventura, orphãos".

Quatro dias depois, com 32 anos de idade, estava morto. Elvira e Manuel, órfãos de pai e de mãe.

A República não fez de Portugal uma sociedade livre e justa. Nem a primeira, e muito menos a segunda.Tornou-se mesmo, tal como Weimar em relação a Hitler, no ovo da serpente que gerou Salazar.

A História é uma coisa complicada. Muitas vezes, é escrita direita por linhas tortas, outras, torta por linhas direitas. A ilusão de Buíça é a ilusão de quem pensa que as acções individuais, livres e racionais, se podem sobrepor às enxurradas dos fluxos históricos. Como se a nossa pequena mão pudesse decidir a direcção do vento.

Não sei se Elvira e Manuel viveram muitos anos. Se viveram, viveram num Portugal obscuro, miserável, triste, isolado. Com a preciosa ajuda da carabina do pai. Não tivesse sido assim e talvez Portugal, com Luís Filipe ou D. Manuel II, reis constitucionais, inteligentes, cultos, cosmopolitas, "europeus", continuasse a aperfeiçoar a democracia nascida em 1822 como qualquer outra monarquia democrática da Europa que nunca tivesse chegado a conhecer tiranos como Estaline, Hitler, Mussolini, Hosha, Ceausescu ou Salazar.

Buíça, pai babado, teria continuado, como o pai de Ulisses, a ensinar os nomes das árvores a Elvira e Manuel, e estes teriam crescido num país muito diferente daquele que viriam a conhecer. Não sei teria sido assim. Poderia ter sido assim.

Não faço ideia do que terá passado pela cabeça de Buíça naquele instante supremo e único, antes de perder os sentidos, após o tiro fatal. Terá pensado em liberdade, igualdade, fraternidade?

Acho que teria morrido mais feliz se tivesse imaginado a sua jovem irmã levada nos seus braços, tendo pela frente um enorme prado verde e florido, numa manhã quente de sol, olhando os lírios do campo levemente ondulados por um vento brincalhão e cheio de alegria. Os lírios do campo não são monárquicos nem republicanos. Podemos olhar à vontade para eles e ver apenas lírios do campo levemente ondulados por um vento brincalhão e cheio de alegria.

4 comentários:

José Borges disse...

Bom, como exercício de ficção é uma leitura interessante do que poderia ter sido diferente. Mas acho que é uma leitura bastante cândida...

José Borges disse...

Bem, eu estava a referir-me a esta parte: 'Não tivesse sido assim e talvez Portugal, com Luís Filipe ou D. Manuel II, reis constitucionais, inteligentes, cultos, cosmopolitas, "europeus", continuasse a aperfeiçoar a democracia nascida em 1822 como qualquer outra monarquia democrática da Europa que nunca tivesse chegado a conhecer tiranos como Estaline, Hitler, Mussolini, Hosha, Ceausescu ou Salazar.'

Só porque acho pouco provável que não tivesse sido assim na mesma.

José Ricardo Costa disse...

Eu não digo que Portugal fosse um país rico e próspero como outras monarquias. Os portugueses não são os holandeses ou alemães. Sobre isso, continuo a ter como referência a conferência do Antero "Causas da Decadência dos Povos Peninsulares". O que eu acho é que com D. Luís Filipe ou D. Manuel II não tivéssemos tido Salazar, ou pelo menos aquele Salazar. Mas quem sabe!

JR

Anónimo disse...

Não sei se é fervor recente ou convicção antiga esse pendor monárquico.
Nem vou entrar na discussão académica acerca da hipótese do ovo da serpente, se outro tivesse sido o nosso destino histórico...
Mas duma coisa estou convencido: em 28.05.1926 interrompeu-se o curso republicano da nossa História para se iniciar um estranho regime de Monarquia electiva...
A segunda República, quanto a mim, iniciou-se em 25.04.1974. Não que esta segunda República não esteja de novo a enveredar pelo impasse e a desilusão que foram a primeira.

Ah! Mas Monarquia... Acho que não!

Desculpe, ZR, ter metido o bedelho em matéria séria com o seu amigo...

abr
jl