10 fevereiro, 2009

BISTON BETULARIA



Alexandre Magno, Joana d’Arc, Leonardo da Vinci. Nomes que ficaram para a História como mitos. Também no mundo das borboletas existe um mito. Uma borboleta que está para a biologia evolucionista como a maçã para Newton, Phineas Cage para António Damásio ou Jesus Cristo para Alexandra Solnado. Apresento-lhe a Biston Betularia, uma verdadeira pop star do mundo científico.

No século XIX, na região de Manchester, havia muitas destas borboletas. Borboletas brancas que se confundiam com as bétulas para se protegerem das aves predadoras. As poucas e desgraçadas borboletas escuras que existiam ficavam assim com poucas hipóteses de sobrevivência.

Com o desenvolvimento industrial da região, as bétulas começaram a escurecer devido à fuligem das fábricas. Pois bem. As pobres e indefesas borboletas negras passaram assim a estar, graças ao seu próprio defeito, numa situação de vantagem, passando o negro a ser a cor dominante neste tipo de borboleta.

Se a Biston Betularia falasse diria que a última borboleta a rir é a que ri melhor, sendo por isso difícil saber, na vida, o que é estar em vantagem ou desvantagem. Aliás, Nietzsche, um filósofo que viveu no século em que as bétulas de Manchester começaram a escurecer, dizia que tudo o que não o matava, tornava-o mais forte. Traduzido para português, dá qualquer coisa como “o que não mata engorda”.

Ora, enquanto português, toda esta história da Biston Betularia não deixa de ser maravilhosa e de me encher de esperança. Porquê? Porque, tal como a Biston Betularia, podemos transformar em força as nossas portuguesas fraquezas.

Há 200.000 portugueses que passam fome, apoiados por instituições. Muitos, são crianças que vão para a escola subnutridas. Há 707. 682 reformados com pensões até um máximo de 216 euros. 272.194 com 199 euros. 120.018 com 164 euros. 26%por cento da população portuguesa vive abaixo do limiar da pobreza. É também o país da Europa dita desenvolvida onde se morre mais de frio, onde os cuidados de saúde são mais precários e onde a ignorância revela níveis mais elevados.

Como se isto não bastasse, conduzir em Portugal é tão perigoso como andar às compras em Bagdad. Aliás, o grande consolo de um iraquiano é mesmo pensar que andar às compras em Bagdad é tão perigoso como conduzir em Portugal.

Ora, tudo isto é fantástico para nós, de acordo com uma lógica evolucionista. Nós sabemos que um animal que nasceu e viveu em cativeiro tem menos hipóteses de sobreviver em liberdade do que outro que sempre viveu no meio selvagem. Porque está protegido, não precisa de caçar, é acompanhado por veterinários. Já o outro, aprendeu a viver com o perigo e a sobreviver em situações adversas. È a chamada “Struggle for life”, luta pela vida, onde os mais fortes sobrevivem e os mais fracos não resistem.

Veja o que aconteceu aos pobres dodôs: extinguiram-se porque não precisavam de se esforçar para sobreviver. Mas isso foi antes da ilha em que viviam começar a ser povoada, antes de os cães lhes fazerem a vida tão negra, tão negra, que ficou negra de vez.

O facto de também termos mais bairros da lata do que os outros países, dá-nos uma enorme vantagem. Os miúdos que aí crescem, que andam nus no Inverno e comem de tudo, ficam com uma resistência que lhes permite enfrentar melhor situações adversas em comparação com qualquer miúdo gordo e mimado de um colégio suíço ou britânico, que passa o Inverno no hospital por causa de burguesas viroses e mimadas bronquiolites.

Há dias estive a falar com duas Testemunhas de Jeová que me deixaram em estado de choque. Não por serem Testemunhas de Jeová, o que para muitos já é motivo suficiente para se ficar em estado de choque, mas pelas suas previsões do futuro. Secas de anos que nos irão fazer morrer de sede, guerras terríveis por causa da água, terramotos, furacões, meteoritos a cair nas nossas cabeças, atentados, José Sócrates de novo 1º ministro, epidemias, cientistas tarados que querem destruir o mundo com armas maquiavélicas.

Daí o meu optimismo. Como irá sobreviver, num mundo assim, um sueco habituado a todas as comodidades? Ou uma criança alemã com o frigorífico cheio de comida? E um inglês, com um serviço nacional de saúde exemplar? E uma criança holandesa que não sabe o que é estar numa escola sem aquecimento?
Uma desgraça. São as tais Biston Betularias brancas que ficaram desprotegidas após as suas bétulas serem invadidas pela fuligem das fábricas.

Os portugueses são as Biston Betularias negras, os pobres, os miseráveis, os desprotegidos da Europa e que, graças a isso, irão sobreviver num mundo adverso, quiçá, para fundar o tão ansiado Quinto-Império de alguns visionários. Não será já altura de substituir o galo de Barcelos pela Biston Betularia?

2 comentários:

Marteodora disse...

Zé Ricardo,
compreendo, aceito e presto as minhas homenagens ao Nietzsche, ao Darwin (que faz 200 anos e é um dos responsáveis pela maneira como interpreto o mundo).
Porém sou portuguesa, faço parte desta realidade pouco abonatória, de facto. E, tenho um grave problema, sofro de fobia a borboletas.
Não podes propor outro animal. Ou será esta a analogia mais adequada?
Se assim for, desculpa, mas prefiro, ainda assim, o portugês galo de Barcelos.

Anónimo disse...

É assim: entra-se e aprende-se sempre alguma coisa.
E recordam-se coisas sérias num jeito leve...

obrº
jl