02 janeiro, 2009

VALERÁ A PENA ELOGIAR A LOUCURA?

Quando eu conheci o Zé Ricardo (reinava no Egipto o faraó Ramsés II) um estranho fenómeno passou a repetir-se no meu pensamento.
Estivesse eu onde estivesse, dentro da minha cabeça a Mariza começava a cantar As Fontes da Sophia:

Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser vivo e total,
À agitação do mundo irreal,
E calma subirei até às fontes.

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor.

Irei beber a luz e o amanhecer
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.

Era estranho e repentino: de passo apressado a caminho do Multibanco e lá ouvia eu a Mariza cantar: Um dia quebrarei todas as pontes.
Bicha do supermercado para pagar detergentes e lá começava ela: Irei até às fontes onde mora/ A plenitude, o límpido esplendor/Que me foi prometido em cada hora.
Fosse onde fosse, estivesse onde estivesse e lá começava: Irei beber a luz e o amanhecer/Irei beber a voz dessa promessa/Que às vezes como um voo me atravessa,/E nela cumprirei todo o meu ser.

Era um nunca mais acabar. Pensei estar a enlouquecer o que, veio a provar-se, não estar longe da verdade.
Passaram os séculos. Ramsés II foi morto e embalsamado; Akhnaton construiu Tell-el-Amarna e o vento a levou; os lacedemónios escreveram o epitáfio das Termópilas; os Idos de Março levaram César para a barca Caronte; Octávio e Marco António reconciliaram-se na paz de Brindes, os bárbaros começaram a descer por aí abaixo, Dinis de Portugal casou com Isabel de Aragão, Vasco da Gama chega à Índia; os Pazzi falham o ataque aos Médicis e são pendurados da torre do Palazzo Vecchio, Purcell começa a compor; em França estabelece-se a nobre instituição da maîtresse en titre, (questões de egalité!); Kant atrasa-se na sua pontual passagem matinal porque esperava as notícias da revolução francesa; Wittgenstein escreve o Tractatus e Salgueiro Maia chega a Lisboa de chaimite.
Mariza não voltou a cantar As fontes dentro da minha cabeça.

Porém, estava eu, um destes dias a comprar o pão matinal quando, lá no fundo, Leonard Cohen começa, baixinho, a cantar It’s four in the morning, the end of December
Pânico! E ainda não parou. As Fontes eu ainda podia compreender, mas Famous blue raincoat? Ainda se fosse Dance me to the end of love ou I’m your man.
Mais grave ainda: neste últimos dias, ele não se limita à primeira frase, vai por aí adiante. Quando ele chega a your famous blue raincoat, fico logo furiosa: então eu alguma vez deixava my man andar de gabardina torn at the shoulder?
Não faz sentido nenhum. Devo estar a enlouquecer outra vez.
Uma esperança me resta: o Zé Ricardo, como a cidade e o mundo sabem, é um racionalista, embora lhe surjam, como a chuva em Maio, uns laivos de romantismo ainda que literário. Ora bem, ter uma mulher louca tem um petit rien de encanto. Literário, claro está.

8 comentários:

República dos Bananas disse...

Olhe Dra. Ivone, há coisas bem piores; bem, se apenas conseguir ouvir o homem a cantar, não sei não...mas se conseguir ouvir a música e principalmente o solo de saxofone, concluirá que há coisas bem piores do que andar com uma gabardine azul pelas costas às tantas da manhã...
Sendo ele um racionalista, pior seria se fosse condenado a 20 anos de aborrecimento "for trying to change the system from within"! Mas pensando bem, tenho de concordar consigo...andar à chuva de gabardine, às tantas da manhã, já só por muita necessidade!
:-D

República dos Bananas disse...

Começo a dar-lhe razão,... o solo de saxofone só está nos arranjos mais recentes. Assim, acredito realmente que não faça grande sentido sair às quatro da manhã de gabardine azul...

Marteodora disse...

Bem, não querendo repetir Erasmo, elogiarei sempre a loucura!
A dita é saudável, dá-nos vida e, ponderemos: quem será mais feliz? Os loucos? Os que o não são? Quem são os loucos? Os que o parecem? Os que o não parecem?
Acredito que a loucura,a insanidade, em dose certa, traz felicidade e é absolutamente necessária ao Amor e à partilha da vida de duas pessoas. Aliás, é essencial ao saber viver neste Mundo.
É certo que incomoda, claro. Sobretudo, os “cinzentões”, aqueles que, por falta de coragem, não assumem a sua loucura e invejam os loucos!
Continuemos loucos, doidos varridos, os que ouvimos as “vozes” cá dentro.
De poeta e de louco… só alguns!

Ivone Mendes disse...

Minha cara Margarida, antes de mais, quero desejar-lhe um ano óptimo, repleto de bibliotecas frondosas.
Agradeço-lhe o inteligente, sábio e escorreito comentário.
Deixe-me contar-lhe uma história: uma das minhas tias, para além de ser uma mulher muito inteligente, é posuidora de um talento difícil: recebe muito bem. Diz ela que é simples: basta ter sempre do que as possíveis visitas apreciem. Lá estão os bolinhos para um, o licor para outro, enfim, essas pequenas coisas. Ora bem, bem guardado no armário, há sempre um whisky caro e muito bom que é o único bebido por um dos meus primos, moço de gostos apurados.
Quando alguém tenta jogar-lhe a mão, ela é irredutível : "Esse whisky não é para ti".
Nem imagina, mutatis mutandis, as vezes que já me apeteceu dizer o mesmo.
Margarida caríssima, o whisky deste post é para si. Beba o que lhe apetecer. Se se acabar, eu arranjo-lhe mais.

jlf disse...

Ah! Quando o amor acontece!...

(Eu sabia!...)
(Mereçam-se)

jl

Alice N. disse...

Uma boa dose de loucura é, talvez, o melhor remédio para manter a sanidade mental...
Porque só os loucos têm o privilégio de reinventar os dias com novas cores.

Alice

Marteodora disse...

Ivone,
Com toda a certeza, virei aqui "beber" mais vezes.
Um bom ano também para si!

Anónimo disse...

As minhas homenagens, minha senhora, sua postagem é belíssima pela rara e difícil ligação entre a ironia, a metáfora e a justa medida.
Cheguei a Ponteiros Parados através de Mar Salgado e lhes ficarei eternamente grato. Me tornei visita diária para não perder os textos de desarmante lucidez do senhor seu marido, suas geniais fotografias e a bela ondulação sintáctica das frases de Vexa, onde se adivinha uma apurada formação clássica.
Minha mulher e eu nos comovemos com a citação do poema de Felippe d'Oliveira que frequentava a casa de meus pais, nos comovemos com a citação de um poema da nossa Cecília que, até aqui no Brasil, é praticamente desconhecido.
Já pensei pedir a meus filhos que me criassem blogue onde fosse dedilhando minhas modestas postagens. Mas como impedir que uma fruta qualquer lá entre e deixe a vacuidade de suas banalidades? Por isso o tenho evitado.
Quando eu era moço, acreditava ser o bastante ignorar a vacuidade e logo ela se esfumaria. Hoje, que sou um homem muito velho, tenho firme convicção de que à vacuidade cultural é preciso mover ataque feroz e a vencer. Se não resistirmos, ela nos vencerá a nós.
Cá tornarei, como sempre, sedento de minha gotinha de whisky.

Thomaz Mello de Athayde (Rio de Janeiro)