14 janeiro, 2009

UNDERSKINCOMMA


Na sua Conferência sobre Ética, de 1929, Wittgenstein retira os valores éticos de qualquer domínio factual. Os valores éticos, pura e simplesmente, não existem. O que apenas existe é a totalidade dos factos. Repito: factos. E os valores não são factos. A bem dizer, pode-se mesmo dizer que os valores não são nada.

É o próprio Wittgenstein que dá uma imagem sugestiva: “Se, por exemplo, no nosso livro do mundo lêssemos a descrição de um assassínio com todos os pormenores físicos e psíquicos, a mera descrição destes factos não conteria nada a que pudéssemos chamar uma proposição ética. O assassínio estaria exactamente ao mesmo nível que um outro qualquer acontecimento, como por exemplo, o cair de uma pedra. (…) haverá simplesmente factos, factos e factos mas nada de Ética”.

Isto, para nós, habituados que estamos a olhar para o mundo a partir de uma base axiológica (seja ética, estética, utilitária, etc), não pode deixar de soar muito estranho ou até incompreensível. Como se o filósofo de Cambridge não vivesse no mesmo mundo em que nós vivemos, como se os seus quadros mentais perante factos não tivessem as nossas referências.

Mutatis mutandis, lembrei-me disto a respeito de grande parte das fotografias do blogue fotográfico Underskincomma. Porquê? Porque se trata de um trabalho fotográfico que nos dá a ver um mundo que, sendo o nosso, não é o nosso. Estão lá as referências, os sinais que nos dão um certo sentimento de familiaridade. Mas também há, depois, uma estranheza que resulta de uma transformação desses sinais, levando a uma reorganização do mundo que, desse modo, deixa de ser o nosso.

Trata-se de uma fotografia que nos obriga a ver o mundo como se, de repente, nos tornássemos aliens acabados de aqui chegar. Está lá tudo mas não está lá nada. Um mundo, muitas vezes, puramente factual, sórdido, amoral e aestético pelo qual caminhamos um pouco perdidos mas, ao mesmo tempo, fascinados. Mas também com momentos de intensa beleza e enorme lirismo visual.

Não posso deixar de referir, igualmente, os títulos das fotografias enquanto parte integrante destas, como se formassem um todo inseparável. Graças a eles, mais claro se torna o conteúdo irónico de algumas fotografias. Vale a pena passar por lá.

2 comentários:

José Borges disse...

Isto apresenta-me mais um problema.

As fotografias estão no geral muito boas, mas falta-lhes o punctum de que Barthes fala. Ainda que encontrar esse punctum seja um exercício estritamente pessoal. Nesse ponto, o site de Steve Mccurry, esse sim, era verdadeiramente impressionante. Obrigado!

Micha disse...

Carissimo Jose Ricardo muito obrigada! Seu post e' simplesmente fenomenal, muito maior do que as fotos :) e ja agora, pegar na maquina fotografica e' algo muito recente. Comecei brincando com manipulacao & polaroid e ano passado embarquei em uma pequena digital que tem ajudado bastante a descontrair depois de horas de trabalho solitario na clinica... e se nao fosse o underskincomma, jamais teria chegado aos ponteiros parados...e so porisso ja valeu a pena! Muito obrigada.
Micha