15 janeiro, 2009

SARILHOS GRANDES


A Mancha Humana, de Philip Roth, começa no Verão de 1998, quando a América está transformada num tribunal ao discutir o oval romance entre o presidente e a menina Lewinsky. É nesse período que Coleman Silk, professor de Estudos Clássicos, tem um momento de viragem na sua vida.

Nas primeiras aulas, para decorar os nomes dos alunos, tem o hábito de fazer a chamada. Perante a chamada de dois nomes femininos que, depois de várias aulas, continua a não ter resposta, pergunta: " Alguém conhece estas pessoas? Existem ou serão spooks"? Spook, tanto pode significar "fantasma" ou "espectro", mas ser também um termo depreciativo para "preto".

As duas alunas sabem do caso. Fazem queixa e o professor é chamado ao reitor. A partir daqui, e por causa da doentia ideologia do "politicamente correcto", a vida do profesor Silk muda radicalmente, sendo transformada num inferno. Não adiantou ter explicado que jamais pretendera brincar com a cor da pele das alunas, até porque nunca as tinha visto. Quis apenas considerá-las "espectros", precisamente por nunca as ter visto. Não resultou.

O coro de indignação resultante das declarações de D. José Policarpo, nas quais aconselha as mulheres a terem cuidado antes de casarem com muçulmanos, não faz sentido. Porquê? Porque, em abstracto, não se trata de racismo. Trata-se, sim, de partir de um facto empírico: há um problema com as mulheres no mundo muçulmano. Um problema muito mal resolvido, infelizmente para as mulheres.

Claro que há países muçulmanos mais simpáticos para as mulheres do que outros. Há mulheres turcas ou argelinas que vivem como qualquer mulher portuguesa ou francesa. Mas o cardeal também não está a defender o não casamento com muçulmanos. Está apenas a lembrar certas coisas. Sem medo do politicamente correcto e sem estar condicionado por tretas multiculturais que tratam com o mesmo respeito cosmopolita o trigo e o joio.

2 comentários:

Anónimo disse...

Quanto à "saída" do cardeal, tenho uma outra perspectiva da questão: penso ter sido uma pequena, mas evitável, acha para a grande fogueira da intolerância...
Por vezes, o "peso" do infractor aumenta a gravidade da infracção...
jl

Anónimo disse...

Já agora uma curiosidade de que os mais velhos se lembrarão: antigamente havia uma expressão que associava o nome de Salazar a sarilhos, havendo então, curiosamente uma localidade (na outra banda, creio que em Montijo ou Alcochete, por aí) chamada Sarilhos Grandes, onde existia uma rua, avenida ou coisa no género com o nome do ditador...

jl