19 janeiro, 2009

OS NOMES DAS ÁRVORES

(Underskincomma)

Nomear-te-ei as árvores que me deste no bem tratado
pomar, quando eu, ainda criança, te seguia pelo jardim.
Passámos por essas árvores: tu disseste-me os nomes
e explicaste como era cada uma. Deste-me treze pereiras,
dez macieiras e quarenta figueiras. Prometeste-me também
cinquenta renques de cepas; cada uma amadurecia
na época própria, com cachos de uvas de toda a espécie
quando descessem do céu as estações de Zeus.
Homero, Odisseia, canto XXIV

Gosto muito de passear pelo campo. Mas há nesses passeios uma coisa que me irrita: a minha ignorância acerca dos nomes dos diferentes tipos de plantas campestres pelas quais vou passando. È bastante desconfortável estar perante uma flor e não saber o nome dela.
Uma coisa é o processo pelo qual ela chega aos nossos sentidos. Para tal, basta ver, tocar ou cheirar. Mas outra coisa já será o modo como ela entra na nossa consciência e passa a fazer parte do nosso património mental. E, para isso, saber o nome é fundamental. Sem um nome que identifique tudo se torna vago e impreciso no interior da nossa consciência.

Foi com um entusiasmo quase infantil que, há tempos, no convento da Arrábida, soube que estavam acantos à frente dos meus olhos. O acanto é aquela planta cujas folhas se encontram nas colunas coríntias, distinguindo-as das dóricas e das jónicas. Para mim, o acanto era uma planta quase mítica, inacessível, um preciosismo arquitectónico. Ora, olhar para os acantos sabendo que são acantos é bem diferente do que olhar para os acantos sem saber que são acantos, não passando de um conjunto de formas, cores e cheiros que desaparecem mal deixamos de olhar para ele.

Ulisses fez parte da grande expedição grega que foi buscar Helena a Tróia. O cerco a Tróia durou 10 anos. Mas, depois da vitória, Ulisses não veio logo para casa. Andou perdido de ilha em ilha durante outros 10 anos e só depois regressa a Ítaca.

Quando, 20 anos depois, vai ter com o pai, este, julgando o filho morto, não acredita que o homem que está à sua frente é Ulisses, e pede-lhe que o prove. É então que Ulisses diz ao pai as palavras escritas em cima.
É uma das passagens mais belas e comoventes da Odisseia. Quando a li percebi logo tudo: ser pai é ensinar aos filhos os nomes das árvores. Ser filho é seguir o pai pelo jardim aprendendo os nomes das árvores.

2 comentários:

Micha disse...

maravilhoso!

Alice N. disse...

De facto, maravilhoso. E que emoção este lindíssimo texto me causou! Uma escrita ímpar. Para ler e reler.